{"id":12456,"date":"2010-10-05T18:34:24","date_gmt":"2010-10-05T18:34:24","guid":{"rendered":"http:\/\/antonini.med.br\/portal\/?p=12456"},"modified":"2024-09-01T02:11:50","modified_gmt":"2024-09-01T02:11:50","slug":"malleus-maleficarum-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonini.psc.br\/?p=12456","title":{"rendered":"Malleus Maleficarum"},"content":{"rendered":"<p>Traduz-se por &#8220;O Martelo das Feiticeiras&#8221;.<!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Breve Introdu\u00e7\u00e3o Hist\u00f3rica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por: <strong>Rose Marie Muraro<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-15460 aligncenter\" alt=\"Capa original do livro Malleus Maleficarum\" src=\"https:\/\/antonini.com.br\/img\/620.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>Escrito em 1484 pelos inquisidores Heinrich Kramer e James Sprenger<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para compreendermos a import\u00e2ncia do Malleus \u00e9 preciso ter\u00admos uma vis\u00e3o ao menos m\u00ednima da hist\u00f3ria da mulher no interior da hist\u00f3ria humana em geral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo a maioria dos antrop\u00f3logos, o ser humano habita este planeta h\u00e1 mais de dois milh\u00f5es de anos. Mais de tr\u00eas quartos deste tempo a nossa esp\u00e9cie passou nas culturas de coleta e ca\u00e7a aos peque\u00adnos animais. Nessas sociedades n\u00e3o havia necessidade de for\u00e7a f\u00edsica para a sobreviv\u00eancia, e nelas as mulheres possu\u00edam um lugar central.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em nosso tempo ainda existem remanescentes dessas culturas, tais como os grupos mahoris (Indon\u00e9sia), pigmeus e bosqu\u00edmanos (\u00c1frica Central). Estes s\u00e3o os grupos mais primitivos que existem e ainda sobrevivem da coleta dos frutos da terra e da pequena ca\u00e7a ou pesca. Nesses grupos, a mulher ainda \u00e9 considerada um ser sagrado, porque pode dar a vida e, portanto, ajudar a fertilidade da terra e dos animais. Nesses grupos, o princ\u00edpio masculino e o feminino governam o mundo juntos. Havia divis\u00e3o de trabalho entre os sexos, mas n\u00e3o ha\u00advia desigualdade. A vida corria mansa e paradis\u00edaca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas sociedades de ca\u00e7a aos grandes animais, que sucedem a essas mais primitivas, em que a for\u00e7a f\u00edsica \u00e9 essencial, \u00e9 que se inicia a supremacia masculina. Mas nem nas sociedades de coleta nem nas de ca\u00e7a se conhecia fun\u00e7\u00e3o masculina na procria\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m nas sociedades de ca\u00e7a a mulher era considerada um ser sagrado, que possu\u00eda o privil\u00e9gio dado pelos deuses de reproduzir a esp\u00e9cie. Os homens se sentiam marginalizados nesse processo e invejavam as mulheres. Essa primitiva inveja do \u00fatero\u201d dos homens \u00e9 a antepassada da moderna \u201cinveja do p\u00eanis\u201d que sentem as mulheres nas culturas patriarcais mais recentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A inveja do \u00fatero dava origem a dois ritos universalmente encontrados nas sociedades de ca\u00e7a pelos antrop\u00f3logos e observados em partes opostas do mundo, como Brasil e Oceania. O primeiro \u00e9 o fen\u00f4meno da couvade, em que a mulher come\u00e7a a trabalhar dois dias depois de parir e o homem fica de resguardo com o rec\u00e9m-nascido, recebendo visitas e presentes&#8230; O segundo \u00e9 a inicia\u00e7\u00e3o dos homens. Na adolesc\u00eancia, a mulher tem sinais exteriores que marcam o limiar da sua entrada no mundo adulto. A menstrua\u00e7\u00e3o a torna apta \u00e0 maternidade e representa um novo patamar em sua vida. Mas os adolescentes homens n\u00e3o possuem esse sinal t\u00e3o \u00f3bvio. Por isso, na puberdade eles s\u00e3o arrancados pelos homens \u00e0s suas m\u00e3es, para serem iniciados na \u201ccasa dos homens\u201d. Em quase todas essas inicia\u00e7\u00f5es, o ritual \u00e9 semelhante: \u00e9 a imita\u00e7\u00e3o cerimonial do parto com objetos de madeira e instrumentos musicais. E nenhuma mulher ou crian\u00e7a pode se aproximar da casa dos homens, sob pena de morte. Desse dia em diante o homem pode \u201cparir\u201d ritualmente e, portanto, tomar seu lugar na cadeia das gera\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao contr\u00e1rio da mulher, que possu\u00eda o \u201cpoder biol\u00f3gico\u201d, o homem foi desenvolvendo o \u201cpoder cultural\u201d \u00e0 medida que a tecnologia foi avan\u00e7ando. Enquanto as sociedades eram de coleta, as mulheres mantinham uma esp\u00e9cie de poder, mas diferente das culturas patriarcais. Essas culturas primitivas tinham de ser cooperativas, para poder sobreviver em condi\u00e7\u00f5es hostis, e portanto n\u00e3o havia coer\u00e7\u00e3o ou centraliza\u00e7\u00e3o, mas rod\u00edzio de lideran\u00e7as, e as rela\u00e7\u00f5es entre homens e mulheres eram mais fluidas do que viriam a ser nas futuras sociedades patriarcais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos grupos matric\u00eantricos, as formas de associa\u00e7\u00e3o entre homens e mulheres n\u00e3o inclu\u00edam nem a transmiss\u00e3o do poder nem a da heran\u00ad\u00e7a, por isso a liberdade em termos sexuais era maior. Por outro lado, quase n\u00e3o existia guerra, pois n\u00e3o havia press\u00e3o populacional pela conquista de novos territ\u00f3rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E s\u00f3 nas regi\u00f5es em que a coleta \u00e9 escassa, ou onde v\u00e3o se esgotando os recursos naturais vegetais e os pequenos animais, que se inicia a ca\u00e7a sistem\u00e1tica aos grandes animais. E a\u00ed come\u00e7am a se instalar a supremacia masculina e a competitividade entre os grupos na busca de novos territ\u00f3rios. Agora, para sobreviver, as sociedades t\u00eam de competir entre si por um alimento escasso. As guerras se tornam constantes e passam a ser mitificadas. Os homens mais valorizados s\u00e3o os her\u00f3is guerreiros. Come\u00e7a a se romper a harmonia que ligava a esp\u00e9cie humana \u00e0 natureza. Mas ainda n\u00e3o se instala definitivamente a lei do mais forte. O homem ainda n\u00e3o conhece com precis\u00e3o a sua fun\u00e7\u00e3o reprodutora e cr\u00ea que a mulher fica gr\u00e1vida dos deuses. Por isso ela ainda conserva poder de decis\u00e3o. Nas culturas que vivem da ca\u00e7a, j\u00e1 existe estratifica\u00e7\u00e3o social e sexual, mas n\u00e3o \u00e9 completa como nas sociedades que se lhes seguem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E no decorrer do neol\u00edtico que, em algum momento, o homem come\u00e7a a dominar a sua fun\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica reprodutora, e, podendo control\u00e1-la, pode tamb\u00e9m controlar a sexualidade feminina. Aparece ent\u00e3o o casamento como o conhecemos hoje, em que a mulher \u00e9 propriedade do homem e a heran\u00e7a se transmite atrav\u00e9s da descend\u00eancia masculina. J\u00e1 acontece assim, por exemplo, nas sociedades pastoris descritas na B\u00edblia. Nessa \u00e9poca, o homem j\u00e1 tinha aprendido a fundir metais. Essa descoberta acontece por volta de 10000 ou 8000 a.C. E, \u00e0 medida que essa tecnologia se aperfei\u00e7oa, come\u00e7am a ser fabricadas n\u00e3o s\u00f3 armas mais sofisticadas como tamb\u00e9m instrumentos que permitem cultivar melhor a terra (o arado, por ex.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje h\u00e1 consenso entre os antrop\u00f3logos de que os primeiros hu\u00admanos a descobrir os ciclos da natureza foram as mulheres, porque podiam compar\u00e1-los com o ciclo do pr\u00f3prio corpo. Mulheres tamb\u00e9m devem ter sido as primeiras plantadoras e as primeiras ceramistas, mas foram os homens que, a partir da inven\u00e7\u00e3o do arado, sistematizaram as atividades agr\u00edcolas, iniciando uma nova era, a era agr\u00e1ria, e com ela a hist\u00f3ria em que vivemos hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para poder arar a terra, os grupamentos humanos deixam de ser n\u00f4mades. S\u00e3o obrigados a se tornar sedent\u00e1rios. Dividem a terra e for\u00admam as primeiras planta\u00e7\u00f5es. Come\u00e7am a se estabelecer as primeiras aldeias, depois as cidades, as cidades-estado, os primeiros Estados e os imp\u00e9rios, no sentido antigo do termo. As sociedades, ent\u00e3o, se tor\u00adnam patriarcais, isto \u00e9, os portadores dos valores e da sua transmiss\u00e3o s\u00e3o os homens. J\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o mais os princ\u00edpios feminino e masculino que governam juntos o mundo, mas, sim, a lei do mais forte. A comi\u00adda era primeiro para o dono da terra, sua fam\u00edlia, seus escravos e seus soldados. At\u00e9 ser escravo era privil\u00e9gio. S\u00f3 os p\u00e1rias n\u00f4mades, os sem-terra, \u00e9 que pereciam no primeiro inverno ou na primeira escassez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse contexto, quanto mais filhos, mais soldados e mais m\u00e3o-de-obra barata para arar a terra. As mulheres tinham a sua sexualidade rigidamente controlada pelos homens. O casamento era monog\u00e2mico e a mulher era obrigada a sair virgem das m\u00e3os do pai para as m\u00e3os do marido. Qualquer ruptura desta norma podia significar a mor\u00adte. Assim tamb\u00e9m o adult\u00e9rio: um filho de outro homem viria amea\u00e7ar a transmiss\u00e3o da heran\u00e7a que se fazia atrav\u00e9s da descend\u00eancia da mulher. A mulher fica, ent\u00e3o, reduzida ao \u00e2mbito dom\u00e9stico. Perde qualquer capacidade de decis\u00e3o no dom\u00ednio p\u00fablico, que fica inteira\u00admente reservado ao homem. A dicotomia entre o privado e o p\u00fablico torna-se, ent\u00e3o, a origem da depend\u00eancia econ\u00f4mica da mulher, e esta depend\u00eancia, por sua vez, gera, no decorrer das gera\u00e7\u00f5es, uma sub\u00admiss\u00e3o psicol\u00f3gica que dura at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E nesse contexto que transcorre todo o per\u00edodo hist\u00f3rico at\u00e9 os dias de hoje. De matric\u00eantrica, a cultura humana passa a patriarcal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o Verbo Veio Depois <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cNo principio era a M\u00e3e, o Verbo veio depois.\u201d l~ assim que Marilyn French, uma das maiores pensadoras feministas americanas, come\u00e7a o seu livro Beyond Power (Summit Books, Nova York, 1985). E n\u00e3o \u00e9 sem raz\u00e3o, pois podemos retra\u00e7ar os caminhos da esp\u00e9cie atra\u00adv\u00e9s da sucess\u00e3o dos seus mitos. Um mit\u00f3logo americano, em seu livro The Masks of God: Occidental Mythology (Nova York, 1970), citado por French, divide em quatro grupos todos os mitos conhecidos da cria\u00e7\u00e3o. E, surpreendentemente, esses grupos correspondem \u00e0s etapas cronol\u00f3gicas da hist\u00f3ria humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na primeira etapa, o mundo \u00e9 criado por uma deusa m\u00e3e sem au\u00adx\u00edlio de ningu\u00e9m. Na segunda, ele \u00e9 criado por um deus andr\u00f3gino ou um casal criador. Na terceira, um deus macho ou toma o poder da deusa ou cria o mundo sobre o corpo da deusa primordial. Finalmente, na quarta etapa, um deus macho cria o mundo sozinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas quatro etapas que se sucedem tamb\u00e9m cronologicamente s\u00e3o testemunhas eternas da transi\u00e7\u00e3o da etapa matric\u00eantrica da humanidade para sua fase patriarcal, e \u00e9 esta sucess\u00e3o que d\u00e1 veracidade \u00e0 frase j\u00e1 citada de Marilyn French.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns exemplos nos far\u00e3o entender as diversas etapas e a frase de French. O primeiro e mais importante exemplo da primeira etapa em que a Grande M\u00e3e cria o universo sozinha \u00e9 o pr\u00f3prio mito grego. Nele a criadora prim\u00e1ria \u00e9 G\u00e9ia, a M\u00e3e Terra. Dela nascem todos as protodeuses: Urano, osTit\u00e3s e as protodeusas, entre as quais R\u00e9ia, que vir\u00e1 a ser a m\u00e3e do futuro dominador do Olimpo, Zeus. H\u00e1 tamb\u00e9m o caso do mito Nag\u00f4, que vem dar origem ao candombl\u00e9. Neste mito africano, \u00e9 Nan\u00e3 Buruqu\u00ea que d\u00e1 \u00e0 luz todos os orix\u00e1s, sem aux\u00edlio de ningu\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Exemplos do segundo caso s\u00e3o o deus andr\u00f3gino que gera todos os deuses, no hindu\u00edsmo, e o yin e o yang, o principio feminino e o masculino que governam juntos na mitologia chinesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Exemplos do terceiro caso s\u00e3o as mitologias nas quais reinam em primeiro lugar deusas mulheres, que s\u00e3o, depois, destronadas por deuses masculinos. Entre essas mitologias est\u00e1 a sumeriana, em que primitivamente a deusa Siduri reinava num jardim de del\u00edcias e cujo poder foi usurpado por um deus solar. Mais tarde, na epop\u00e9ia de Gilgamesh, ela \u00e9 descrita como simples serva. Ainda, os mitos primitivos dos astecas falam de um mundo perdido, de um jardim paradis\u00edaco governado por Xoxiquetzl, a M\u00e3e Terra. Dela nasceram os Huitzuhuahua, que s\u00e3o os Tit\u00e2s e os Quatrocentos Habitantes do Sul (as estrelas). Mais tarde, seus filhos se revoltam contra ela e ela d\u00e1 \u00e0 luz o deus que iria governar a todos, Huitzilopochtli.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir do segundo mil\u00eanio a.C., contudo, raramente se registram mitos em que a divindade prim\u00e1ria seja mulher. Em muitos deles, estas s\u00e3o substitu\u00eddas por um deus macho que cria o mundo a partir de si mesmo, tais como os mitos persa, meda e, principalmente e acima de todos, o nosso mito crist\u00e3o, que \u00e9 o que ser\u00e1 enfocado aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jav\u00e9 \u00e9 deus \u00fanico todo-poderoso, onipresente, e controla todos os seres humanos em todos os momentos da sua vida. Cria sozinho o mundo em sete dias e, no final, cria o homem. E s\u00f3 depois cria a mulher, assim mesmo a partir do homem. E coloca ambos no Jardim das Del\u00edcias onde o alimento \u00e9 abundante e colhido sem trabalho. Mas, gra\u00e7as \u00e0 sedu\u00e7\u00e3o da mulher, o homem cede \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o da serpente e o casal \u00e9 expulso do para\u00edso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de prosseguir, procuremos analisar o que j\u00e1 se tem at\u00e9 aqui em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher. Em primeiro lugar, ao contr\u00e1rio das culturas primitivas, Jav\u00e9 \u00e9 deus \u00fanico, centralizador, dita r\u00edgidas regras de comportamento cuja transgress\u00e3o \u00e9 sempre punida. Nas primitivas mitologias, ao contr\u00e1rio, a Grande M\u00e3e \u00e9 permissiva, amorosa e n\u00e3o\u00ad coercitiva. E como todos os mitos fundantes das grandes culturas tendem a sacralizar os seus principais valores, Jav\u00e9 representa bem a trans\u00adforma\u00e7\u00e3o do matricentrismo em patriarcado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Jardim das Del\u00edcias \u00e9 a lembran\u00e7a arquet\u00edpica da antiga harmonia entre o ser humano e a natureza. Nas culturas de coleta n\u00e3o se trabalhava sistematicamente. Por isso os controles eram frouxos e podia se viver mais prazerosamente. Quando o homem come\u00e7a a dominar a natureza, ele come\u00e7a a se separar dessa mesma natureza em que at\u00e9 ent\u00e3o vivia imerso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como o trabalho \u00e9 penoso, necessita agora de poder central que imponha controles mais r\u00edgidos e puni\u00e7\u00e3o para a transgress\u00e3o. \u00c9 preciso usar a coer\u00e7\u00e3o e a viol\u00eancia para que os homens sejam obrigados a trabalhar, e essa coer\u00e7\u00e3o \u00e9 localizada no corpo, na repress\u00e3o da sexualidade e do prazer. Por isso o pecado original, a culpa m\u00e1xima, na B\u00edblia, \u00e9 colocado no ato sexual (\u00e9 assim que, desde mil\u00eanios, popular\u00admente se interpreta a transgress\u00e3o dos primeiros humanos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E por isso que a \u00e1rvore do conhecimento \u00e9 tamb\u00e9m a \u00e1rvore do bem e do mal. O progresso do conhecimento gera o trabalho e por isso o corpo tem de ser amaldi\u00e7oado, porque o trabalho \u00e9 bom. Mas \u00e9 interessante notar que o homem s\u00f3 consegue conhecimento do bem e do mal transgredindo a lei do Pai. O sexo (o prazer) doravante \u00e9 mau e, portanto, proibido. Pratic\u00e1-lo \u00e9 transgredir a lei. Ele \u00e9, portanto, limitado apenas \u00e0s fun\u00e7\u00f5es procriativas, e mesmo assim \u00e9 uma culpa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da\u00ed a divis\u00e3o entre sexo e afeto, entre corpo e alma, apan\u00e1gio das civiliza\u00e7\u00f5es agr\u00e1rias e fonte de todas as divis\u00f5es e fragmenta\u00e7\u00f5es do homem e da mulher, da raz\u00e3o e da emo\u00e7\u00e3o, das classes&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tomam ai sentido as puni\u00e7\u00f5es de Jav\u00e9. Uma vez adquirido o conhecimento, o homem tem que sofrer, O trabalho o escraviza. E por isso o homem escraviza a mulher. A rela\u00e7\u00e3o homem-mulher-natureza n\u00e3o \u00e9 mais de integra\u00e7\u00e3o e, sim, de domina\u00e7\u00e3o. O desejo dominante agora \u00e9 o do homem. O desejo da mulher ser\u00e1 para sempre car\u00eancia, e \u00e9 esta paix\u00e3o que ser\u00e1 o seu castigo. Da\u00ed em diante, ela ser\u00e1 definida por sua sexualidade, e o homem, pelo seu trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o interessante \u00e9 que os primeiros cap\u00edtulos do G\u00eanesis podem ser mais bem entendidos \u00e0 luz das modernas teorias psicol\u00f3gicas, especialmente a psican\u00e1lise. Em cada menino nascido no sistema patriarcal repete-se, em n\u00edvel simb\u00f3lico, a trag\u00e9dia primordial. Nos primeiros tempos de sua vida, eles est\u00e3o imersos no Jardim das Del\u00edcias, em que to\u00addos os seus desejos s\u00e3o satisfeitos. E isto lhes faz buscar o prazer que lhes d\u00e1 o contato com a m\u00e3e, a \u00fanica mulher a que t\u00eam acesso. Mas a lei do pai pro\u00edbe ao menino a posse da m\u00e3e. E o menino \u00e9 expulso do mundo do amor, para assumir a sua autonomia e, com ela, a sua maturidade. Principalmente, a sua nudez, a sua fraqueza, os seus limites. E \u00e0 medida que o homem se cinde do Jardim das Del\u00edcias proporcionadas pela mulher-m\u00e3e que ele assume a sua condi\u00e7\u00e3o masculina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E para que possa se tornar homem em termos simb\u00f3licos, ele precisa passar pela puni\u00e7\u00e3o maior que \u00e9 a amea\u00e7a de morte pelo pai. Co\u00admo Ad\u00e3o, o menino quer matar o pai e este o pune, deixando-o s\u00f3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, aquilo que se verifica no decorrer dos s\u00e9culos, isto \u00e9, a transi\u00e7\u00e3o das culturas de coleta para a civiliza\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria mais avan\u00e7ada, \u00e9 relembrado simbolicamente na vida de cada um dos homens do mundo de hoje. Mas duas observa\u00e7\u00f5es devem ser feitas. A primeira \u00e9 que o piv\u00f4 das duas trag\u00e9dias, a individual e a coletiva, \u00e9 a mulher; e a segunda, que o conhecimento condenado n\u00e3o \u00e9 o conhecimento dissociado e abstrato que da\u00ed por diante ser\u00e1 o conhecimento dominante, mas sim o conhecimento do bem e do mal, que vem da experi\u00eancia concreta do prazer e da sexualidade, o conhecimento totalizante que integra intelig\u00eancia e emo\u00e7\u00e3o, corpo e alma, enfim, aquele conhecimento que \u00e9, especificamente na cultura patriarcal, o conhecimento feminino por excel\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Freud dizia que a natureza tinha sido madrasta para a mulher por\u00adque ela n\u00e3o era capaz de simbolizar t\u00e3o perfeitamente como o homem. De fato, para podermos entender a misoginia que da\u00ed por diante caracterizar\u00e1 a cultura patriarcal, \u00e9 preciso analisar a maneira como as ci\u00eancias psicol\u00f3gicas mais atuais apontam para uma estrutura ps\u00edquica feminina bem diferente da masculina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mesma idade em que o menino conhece a trag\u00e9dia da castra\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria, a menina resolve de outra maneira o conflito que a conduzir\u00e1 \u00e1 maturidade. Porque j\u00e1 vem castrada, isto \u00e9, porque n\u00e3o tem p\u00eanis (o s\u00edmbolo do poder e do prazer, no patriarcado), quando seu desejo a leva para o pai ela n\u00e3o entra em conflito com a m\u00e3e de maneira t\u00e3o tr\u00e1gica e aguda como o menino entra com o pai por causa da m\u00e3e. Porque j\u00e1 vem castrada, n\u00e3o tem nada a perder. E a sua identifica\u00e7\u00e3o com a m\u00e3e se resolve sem grandes traumas. Ela n\u00e3o se desliga inteira\u00admente das fontes arcaicas do prazer (o corpo da m\u00e3e). Por isso, tamb\u00e9m, n\u00e3o se divide de si mesma como se divide o homem, nem de suas emo\u00e7\u00f5es. Para o resto da sua vida, conhecimento e prazer, emo\u00e7\u00e3o e intelig\u00eancia s\u00e3o mais integrados na mulher do que no homem e, por isso, s\u00e3o perigosos e desestabilizadores de um sistema que repousa inteiramente no controle, no poder e, portanto, no conhecimento dissociado da emo\u00e7\u00e3o e, por isso mesmo, abstrato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De agora em diante, poder, competitividade, conhecimento, controle, manipula\u00e7\u00e3o, abstra\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia vem juntos. O amor, a integra\u00e7\u00e3o com o meio ambiente e com as pr\u00f3prias emo\u00e7\u00f5es s\u00e3o os elementos mais desestabilizadores da ordem vigente. Por isso \u00e9 preciso precaver-se de todas as maneiras contra a mulher, impedi-la de inter\u00adferir nos processos decis\u00f3rios, fazer com que ela introjete uma ideologia que a conven\u00e7a de sua pr\u00f3pria inferioridade em rela\u00e7\u00e3o ao homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E n\u00e3o espanta que na pr\u00f3pria B\u00edblia encontremos o primeiro ind\u00edcio desta desigualdade entre homens e mulheres. Quando Deus cria o homem, Ele o cria s\u00f3 e apenas depois tira a companheira da costela deste. Em outras palavras: o primeiro homem d\u00e1 \u00e0 luz (pare) a primei\u00adra mulher. Esse fen\u00f4meno psicol\u00f3gico de deslocamento \u00e9 um mecanismo de defesa conhecido por todos aqueles que lidam com a psique humana e serve para revelar escondendo. Tirar da costela \u00e9 menos violento do que tirar do pr\u00f3prio ventre, mas, em outras palavras, aponta para a mesma dire\u00e7\u00e3o. Agora, parir \u00e9 ato que n\u00e3o est\u00e1 mais ligado ao sagrado e \u00e9, antes, uma vulnerabilidade do que uma for\u00e7a. A mulher se inferioriza pelo pr\u00f3prio fato de parir, que outrora lhe assegurava a grandeza. A grandeza agora pertence ao homem, que trabalha e do\u00admina a natureza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais o homem que inveja a mulher. Agora \u00e9 a mulher que inveja o homem e \u00e9 dependente dele. Carente, vulner\u00e1vel, seu desejo \u00e9 o centro da sua puni\u00e7\u00e3o. Ela passa a se ver com os olhos do homem, isto \u00e9, sua identidade n\u00e3o est\u00e1 mais nela mesma e sim em outro. O homem \u00e9 aut\u00f4nomo e a mulher \u00e9 reflexa. Daqui em diante, como o pobre se v\u00ea com os olhos do rico, a mulher se v\u00ea pelo homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da \u00e9poca em que foi escrito o G\u00eanesis at\u00e9 os nossos dias, isto \u00e9, de alguns mil\u00eanios para c\u00e1, essa narrativa b\u00e1sica da nossa cultura patriarcal tem servido ininterruptamente para manter a mulher em seu devido lugar. E, ali\u00e1s, com muita efici\u00eancia. A partir desse texto, a mulher \u00e9 vista como a tentadora do homem, aquela que perturba a sua rela\u00e7\u00e3o com a transcend\u00eancia e tamb\u00e9m aquela que conflitua as rela\u00e7\u00f5es entre os homens. Ela \u00e9 ligada \u00e0 natureza, \u00e0 carne, ao sexo e ao prazer, dom\u00ednios que t\u00eam de ser rigorosamente normatizados: a serpente, que nas eras matric\u00eantricas era o s\u00edmbolo da fertilidade e tida na mais alta estima como s\u00edmbolo m\u00e1ximo da sabedoria, se transforma no dem\u00f4nio, no tentador, na fonte de todo pecado. E ao dem\u00f4nio \u00e9 alocado o pecado por excel\u00eancia, o pecado da carne. Coloca-se no sexo o pecado supremo e, assim, o poder fica imune \u00e0 cr\u00edtica. Apenas nos tempos modernos est\u00e1 se tentando deslocar o pecado da sexualidade para o poder. Isto \u00e9, at\u00e9 hoje n\u00e3o s\u00f3 o homem como as classes dominantes tiveram seu status sacralizado porque a mulher e a sexualidade foram penalizadas como causa m\u00e1xima da de\u00adgrada\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Malleus como Continua\u00e7\u00e3o do G\u00eanesis<\/strong><\/p>\n<p>[singlepic id=915 w=216 h=176 float=right]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto se escrevia o G\u00eanesis no Oriente M\u00e9dio, as grandes culturas patriarcais iam se sucedendo. Na Gr\u00e9cia, o status da mulher foi extremamente degradado. O homossexualismo era pr\u00e1tica comum entre os homens e as mulheres ficavam exclusivamente reduzidas \u00e0s suas fun\u00e7\u00f5es de m\u00e3e, prostituta ou cortes\u00e3. Em Roma, embora durante certo per\u00edodo tivessem bastante liberdade sexual, jamais chegaram a ter po\u00adder de decis\u00e3o no Imp\u00e9rio. Quando o Cristianismo se torna a religi\u00e3o oficial dos romanos no s\u00e9culo IV, tem in\u00edcio a Idade M\u00e9dia. Algo novo acontece. E aqui nos deteremos porque \u00e9 o per\u00edodo que mais nos interessa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do terceiro ao d\u00e9cimo s\u00e9culos, alonga-se um per\u00edodo em que o Cristianismo se sedimenta entre as tribos b\u00e1rbaras da Europa. Nesse per\u00edodo de conflito de valores, \u00e9 muito confusa a situa\u00e7\u00e3o da mulher. Contudo, ela tende a ocupar lugar de destaque no mundo das decis\u00f5es, porque os homens se ausentavam muito e morriam nos per\u00edodos de guerra. Em poucas palavras: as mulheres eram jogadas para o dom\u00ednio p\u00fablico quando havia escassez de homens e voltavam para o dom\u00ednio privado quando os homens reassumiam o seu lugar na cultura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na alta Idade M\u00e9dia, a condi\u00e7\u00e3o das mulheres floresce. Elas t\u00eam acesso \u00e0s artes, \u00e0s ci\u00eancias, \u00e0 literatura. Uma monja, por exemplo, Hrosvitha de Gandersheim, foi o \u00fanico poeta da Europa durante cinco s\u00e9culos. Isso acontece durante as cruzadas, per\u00edodo em que n\u00e3o s\u00f3 a Igreja alcan\u00e7a seu maior poder temporal como, tamb\u00e9m, o mundo se prepara para as grandes transforma\u00e7\u00f5es que viriam s\u00e9culos mais tarde, com a Renascen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e9 logo depois dessa \u00e9poca, no per\u00edodo que vai do fim do s\u00e9culo XIV at\u00e9 meados do s\u00e9culo XV III que aconteceu o fen\u00f4meno generalizado em toda a Europa: a repress\u00e3o sistem\u00e1tica do feminino. Estamos nos referindo aos quatro s\u00e9culos de \u201cca\u00e7a \u00e0s bruxas\u201d.<\/p>\n<p>[singlepic id=917 w=320 h=240 float=left]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deirdre English e Barbara Ehrenreich, em seu livro Witches, Nurses and Midwives (The Feminist Press, 1973), nos d\u00e3o estat\u00edsticas aterradoras do que foi a queima de mulheres feiticeiras em fogueiras durante esses quatro s\u00e9culos. \u201cA extens\u00e3o da ca\u00e7a \u00e0s bruxas \u00e9 espantosa. No fim do s\u00e9culo XV e no come\u00e7o do s\u00e9culo XVI, houve milhares e milhares de execu\u00e7\u00f5es &#8211; usualmente eram queimadas vivas na fogueira &#8211; na Alemanha, na It\u00e1lia e em outros pa\u00edses. A partir de meados do s\u00e9culo XVI, o terror se espalhou por toda a Europa, come\u00e7ando pela Fran\u00e7a e pela Inglaterra. Um escritor estimou o n\u00famero de execu\u00e7\u00f5es em seiscentas por ano para certas cidades, uma m\u00e9dia de duas por dia, \u2018exceto aos domingos\u2019. Novecentas bruxas foram executadas num \u00fanico ano na \u00e1rea de Wertzberg, e cerca de mil na diocese de Como. Em Toulouse, quatrocentas foram assassinadas num \u00fanico dia; no arcebispado de Trier, em 1585, duas aldeias foram deixadas apenas com duas mulheres moradoras cada uma. Muitos escritores estimaram que o n\u00famero total de mulheres executadas subia \u00e0 casa dos milh\u00f5es, e as mulheres constitu\u00edam 85~Vo de todos os bruxos e bruxas que foram executados.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outros c\u00e1lculos levantados por Marilyn French, em seu j\u00e1 citado livro, mostram que o n\u00famero m\u00ednimo de mulheres queimadas vivas \u00e9 de cem mil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde a mais remota antiguidade, as mulheres eram as curadoras populares, as parteiras, enfim, detinham saber pr\u00f3prio, que lhes era transmitido de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. Em muitas tribos primitivas eram elas as xam\u00e3s. Na Idade M\u00e9dia, seu saber se intensifica e aprofunda. As mulheres camponesas pobres n\u00e3o tinham como cuidar da sa\u00fade, a n\u00e3o ser com outras mulheres t\u00e3o camponesas e t\u00e3o pobres quanto elas. Elas (as curadoras) eram as cultivadoras ancestrais das ervas que devolviam a sa\u00fade, e eram tamb\u00e9m as melhores anatomistas do seu tempo. Eram as parteiras que viajavam de casa em casa, de aldeia em aldeia, e as m\u00e9dicas populares para todas as doen\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais tarde elas vieram a representar uma amea\u00e7a. Em primeiro lugar, ao poder m\u00e9dico, que vinha tomando corpo atrav\u00e9s das universidades no interior do sistema feudal. Em segundo, porque formavam organiza\u00e7\u00f5es pontuais (comunidades) que, ao se juntarem, formavam vastas confrarias, as quais trocavam entre si os segredos da cura do corpo e muitas vezes da alma. Mais tarde, ainda, essas mulheres vieram a participar das revoltas camponesas que precederam a centraliza\u00e7\u00e3o dos feudos, os quais, posteriormente, dariam origem \u00e0s futuras na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O poder disperso e frouxo do sistema feudal para sobreviver \u00e9 obrigado, a partir do fim do s\u00e9culo XIII, a centralizar, a hierarquizar e a se organizar com m\u00e9todos pol\u00edticos e ideol\u00f3gicos mais modernos. A no\u00e7\u00e3o de p\u00e1tria aparece, mesmo nessa \u00e9poca (Klausevitz).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A religi\u00e3o cat\u00f3lica e, mais tarde, a protestante contribuem de maneira decisiva para essa centraliza\u00e7\u00e3o do poder. E o fizeram atrav\u00e9s dos tribunais da Inquisi\u00e7\u00e3o que varreram a Europa de norte a sul, leste e oeste, torturando e assassinando em massa aqueles que eram julga\u00addos her\u00e9ticos ou bruxos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este \u201cexpurgo\u201d visava recolocar dentro de regras de comporta\u00admento dominante as massas camponesas submetidas muitas vezes aos mais ferozes excessos dos seus senhores, expostas \u00e0 fome, \u00e0 peste e \u00e0 guerra e que se rebelavam. E principalmente as mulheres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era essencial para o sistema capitalista que estava sendo forjado no seio mesmo do feudalismo um controle estrito sobre o corpo e a sexualidade, conforme constata a obra de Michel Foucault, Hist\u00f3ria da Sexualidade. Come\u00e7a a se construir ali o corpo d\u00f3cil do futuro trabalhador que vai ser alienado do seu trabalho e n\u00e3o se rebelar\u00e1. A partir do s\u00e9culo XVII, os controles atingem profundidade e obsessividade tais que 05 menores, os m\u00ednimos detalhes e gestos s\u00e3o normatizados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos, homens e mulheres, passam a ser, ent\u00e3o, os pr\u00f3prios controladores de si mesmos a partir do mais \u00edntimo de suas mentes. E assim que se instala o puritanismo, do qual se origina, segundo Tawnwy e Max Weber, o capitalismo avan\u00e7ado anglo-sax\u00e3o. Mas at\u00e9 chegar a esse ponto foi preciso usar de muita viol\u00eancia. At\u00e9 meados da Idade M\u00e9dia, as regras morais do Cristianismo ainda n\u00e3o tinham penetrado a fundo nas massas populares. Ainda existiam muitos n\u00facleos de \u201cpa\u00adganismo\u201d e, mesmo entre os crist\u00e3os, os controles eram frouxos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As regras convencionais s\u00f3 eram v\u00e1lidas para as mulheres e homens das classes dominantes atrav\u00e9s dos quais se transmitiam o poder e a heran\u00e7a. Assim, os quatro s\u00e9culos de persegui\u00e7\u00e3o \u00e0s bruxas e aos her\u00e9ticos nada tinham de histeria coletiva, mas, ao contr\u00e1rio, foram uma persegui\u00e7\u00e3o muito bem calculada e planejada pelas classes domi\u00adnantes, para chegar a maior centraliza\u00e7\u00e3o e poder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num mundo teocr\u00e1tico, a transgress\u00e3o da f\u00e9 era tamb\u00e9m transgress\u00e3o pol\u00edtica. Mais ainda, a transgress\u00e3o sexual que grassava solta entre as massas populares. Assim, os inquisidores tiveram a sabedoria de ligar a transgress\u00e3o sexual \u00e0 transgress\u00e3o da f\u00e9. E punir as mulheres por tudo isso. As grandes teses que permitiram esse expurgo do femi\u00adnino e que s\u00e3o as teses centrais do Malleus Maleficarum s\u00e3o as seguintes:<\/p>\n<p>[singlepic id=916 w=320 h=240 float=right]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1) O dem\u00f4nio, com a permiss\u00e3o de Deus, procura fazer o m\u00e1ximo de mal aos homens a fim de apropriar-se do maior n\u00famero poss\u00edvel de almas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2) E este mal \u00e9 feito prioritariamente atrav\u00e9s do corpo, \u00fanico \u201clugar\u201d onde o dem\u00f4nio pode entrar, pois \u201co esp\u00edrito [do homem] \u00e9 governa\u00addo por Deus, a vontade por um anjo e o corpo pelas estrelas\u201d (Parte 1, Quest\u00e3o 1). E porque as estrelas s\u00e3o inferiores aos esp\u00edritos e o dem\u00f4nio \u00e9 um esp\u00edrito superior, s\u00f3 lhe resta o corpo para dominar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3) E este dom\u00ednio lhe vem atrav\u00e9s do controle e da manipula\u00e7\u00e3o dos atos sexuais. Pela sexualidade o dem\u00f4nio pode apropriar-se do corpo e da alma dos homens. Foi pela sexualidade que o primeiro homem pecou e, portanto, a sexualidade \u00e9 o ponto mais vulner\u00e1vel de todos os homens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4) E como as mulheres est\u00e3o essencialmente ligadas \u00e0 sexualidade, elas se tornam as agentes por excel\u00eancia do dem\u00f4nio (as feiticeiras). E as mulheres t\u00eam mais coniv\u00eancia com o dem\u00f4nio \u201cporque Eva nasceu de uma costela torta de Ad\u00e3o, portanto nenhuma mulher pode ser reta\u201d (1,6).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5) A primeira e maior caracter\u00edstica, aquela que d\u00e1 todo o poder \u00e0s feiticeiras, \u00e9 copular com o dem\u00f4nio. Sat\u00e3 \u00e9, portanto, o senhor do prazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6) Uma vez obtida a intimidade com o dem\u00f4nio, as feiticeiras s\u00e3o capazes de desencadear todos os males, especialmente a impot\u00eancia masculina, a impossibilidade de livrar-se de paix\u00f5es desordenadas, abortos, oferendas de crian\u00e7as a Satan\u00e1s, estrago das colheitas, doen\u00e7as nos animais etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">7) E esses pecados eram mais hediondos ao que os pr\u00f3prios pecados de L\u00facifer quando da rebeli\u00e3o dos anjos e dos primeiros pais por ocasi\u00e3o da queda, porque agora as bruxas pecam contra Deus e o Redentor (Cristo), e portanto este crime \u00e9 imperdo\u00e1vel e por isso s\u00f3 pode ser resgatado com a tortura e a morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vemos assim que na mesma \u00e9poca em que o mundo est\u00e1 entrando na Renascen\u00e7a, que vir\u00e1 a dar na Idade das Luzes, processa-se a mais delirante persegui\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres e ao prazer. Tudo aquilo que j\u00e1 es\u00adtava em embri\u00e3o no Segundo Cap\u00edtulo do G\u00eanesis torna-se agora sinistramente concreto. Se nas culturas de coleta as mulheres eram quase sagradas por poderem ser f\u00e9rteis e, portanto, eram as grandes estimuladoras da fecundidade da natureza, agora elas s\u00e3o, por sua capacidade org\u00e1stica, as causadoras de todos os flagelos a essa mesma natureza. Sim, porque as feiticeiras se encontram apenas entre as mulheres org\u00e1sticas e ambiciosas (1, 6), isto \u00e9, aquelas que n\u00e3o tinham a sexualidade ainda normatizada e procuravam impor-se no dom\u00ednio p\u00fablico, exclusivo dos homens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, o Malleus Maleficarum, por ser a continua\u00e7\u00e3o popular do Segundo Cap\u00edtulo do G\u00eanesis, torna-se a testemunha mais importante da estrutura do patriarcado e de como esta estrutura funciona concretamente sobre a repress\u00e3o da mulher e do prazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De doadora da vida, s\u00edmbolo da fertilidade para as colheitas e os animais, agora a situa\u00e7\u00e3o se inverte: a mulher \u00e9 a primeira e a maior pecadora, a origem de todas as a\u00e7\u00f5es nocivas ao homem, \u00e0 natureza e aos animais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante tr\u00eas s\u00e9culos o Malleus foi a b\u00edblia dos Inquisidores e esteve na banca de todos os julgamentos. Quando cessou a ca\u00e7a \u00e0s bruxas, no s\u00e9culo XVIII, houve grande transforma\u00e7\u00e3o na condi\u00e7\u00e3o feminina. A sexualidade se normatiza e as mulheres se tornam fr\u00edgidas, pois orgasmo era coisa do diabo e, portanto, pass\u00edvel de puni\u00e7\u00e3o. Reduzem se exclusivamente ao \u00e2mbito dom\u00e9stico, pois sua ambi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m era pass\u00edvel de castigo. O saber feminino popular cai na clandestinidade, quando n\u00e3o \u00e9 assimilado como pr\u00f3prio pelo poder m\u00e9dico masculino j\u00e1 solidificado. As mulheres n\u00e3o t\u00eam mais acesso ao estudo como na Idade M\u00e9dia e passam a transmitir voluntariamente a seus filhos valores patriarcais j\u00e1 ent\u00e3o totalmente introjetados por elas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 com a ca\u00e7a \u00e0s bruxas que se normatiza o comportamento de homens e mulheres europeus, tanto na \u00e1rea p\u00fablica como no dom\u00ednio do privado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E assim se passam os s\u00e9culos.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sociedade de classes que j\u00e1 est\u00e1 constru\u00edda nos fins do s\u00e9culo XVIII \u00e9 composta de trabalhadores d\u00f3ceis que n\u00e3o questionam o sistema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As Bruxas do S\u00e9culo XX <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora, mais de dois s\u00e9culos ap\u00f3s o t\u00e9rmino da ca\u00e7a \u00e0s bruxas, \u00e9 que podemos ter uma no\u00e7\u00e3o das suas dimens\u00f5es. Neste final de s\u00e9culo e de mil\u00eanio, o que se nos apresenta como avalia\u00e7\u00e3o da sociedade industrial? Dois ter\u00e7os da humanidade passam fome para o ter\u00e7o restante superalimentar-se; al\u00e9m disto h\u00e1 a possibilidade concreta da destrui\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea do planeta pelo arsenal nuclear j\u00e1 colocado e, principalmente, a destrui\u00e7\u00e3o lenta mas cont\u00ednua do meio ambiente, j\u00e1 chegando ao ponto do n\u00e3o-retorno. A acelera\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica mostra-se, portanto, muito mais louca dos inquisidores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda neste fim de s\u00e9culo outro fen\u00f4meno est\u00e1 acontecendo: na mesma jovem rompem-se dois tabus que causaram a morte das feiticeiras: a inser\u00e7\u00e3o no mundo p\u00fablico e a procura do prazer sem repress\u00e3o. A mulher jovem hoje liberta-se porque o controle da sexualidade e a reclus\u00e3o ao dom\u00ednio privado formam tamb\u00e9m os dois pilares da opress\u00e3o feminina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, hoje as bruxas s\u00e3o legi\u00e3o no s\u00e9culo XX. E s\u00e3o bruxas que n\u00e3o podem ser queimadas vivas, pois s\u00e3o elas que est\u00e3o trazendo pela primeira vez na hist\u00f3ria do patriarcado, para o mundo masculino, os valores femininos. Esta reinser\u00e7\u00e3o do feminino na hist\u00f3ria, resgatando o prazer, a solidariedade, a n\u00e3o-competi\u00e7\u00e3o, a uni\u00e3o com a natureza, talvez seja a \u00fanica chance que a nossa esp\u00e9cie tenha de continuar viva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Creio que com isso as nossas bruxinhas da Idade M\u00e9dia podem se considerar vingadas!<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">[<a href=\"javascript:history.go(-1)\">Voltar<\/a>]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Traduz-se por &#8220;O Martelo das Feiticeiras&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[27],"tags":[],"class_list":["post-12456","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonini.psc.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/12456","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonini.psc.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonini.psc.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonini.psc.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonini.psc.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=12456"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/antonini.psc.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/12456\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":33258,"href":"https:\/\/antonini.psc.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/12456\/revisions\/33258"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonini.psc.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=12456"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonini.psc.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=12456"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonini.psc.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=12456"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}