{"id":19086,"date":"2013-09-22T10:15:26","date_gmt":"2013-09-22T10:15:26","guid":{"rendered":"http:\/\/antonini.med.br\/blog\/?p=19086"},"modified":"2022-02-15T02:40:48","modified_gmt":"2022-02-15T02:40:48","slug":"o-trapo-e-a-garrafa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonini.psc.br\/?p=19086","title":{"rendered":"O trapo e a garrafa"},"content":{"rendered":"<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">A anestesia produziu aparelhos mais engenhosos at\u00e9 mesmo do que a horticultura. John Snow foi o primeiro anestesista profissional do mundo. Natural de Yorkshire, o mais velho dos nove filhos de um fazendeiro, morava no Soho e trabalhava no Hospital George, em Hyde Park Comer, dando 10 anestesias por semana. Em 1847 inventou um inalador port\u00e1til de \u00e9ter \u00a0do tamanho de um livro grosso, com um dispositivo de banho-maria para vaporizar o anest\u00e9sico, que era derramado num recipiente com uma placa em espiral, do qual o paciente inalava o vapor mais pesado do que o ar por um tubo longo e flex\u00edvel. Uma mascara triangular, com uma v\u00e1lvula, cobre a boca e o nariz na monografa de Snow, a boca e o nariz de uma bela jovem com deliciosos cachos de cabelo. Snow aplicou uma mente cientifica ao novo assunto que havia surgido por acaso e por especula\u00e7\u00e3o, e que podia facilmente ter-se perdido na supersti\u00e7\u00e3o e na falsa medicina. Ele escreveu Sobre o clorof\u00f3rmio e outros anest\u00e9sicos e caiu morto.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Joseph Thomas Clover (1825-1882)), barba espessa e sempre de sobrecasaca, seguiu Snow como o mais procurado anestesista de Londres. Ele clinicava no Hospital Westminster e tinha entre seus pacientes Robert Peel, o ex-Napole\u00e3o III, a futura rainha Alexandra e Florence Nightingale, possivelmente para intimid\u00e1-lo. Ele inventou um inalador de clorof\u00f3rmio no qual uma dose era vaporizada por uma seringa e bombeada por um fole numa bolsa do tamanho de uma fronha. Tudo isso apavorava os pacientes nervosos. Esse m\u00e9todo desprendia 4,5% de clorof\u00f3rmio no ar, o primeiro anest\u00e9sico a ser medido. Ele inventou tamb\u00e9m a \u201cmuleta de Cover\u201d, que mantinha erguidas pemas da paciente anestesiadas quando o cirurgi\u00e3o precisava alcan\u00e7ar o per\u00edneo.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Os v\u00e1rios aplicadores de anestesia usados na segunda metade do s\u00e9culo XIX iam desde simples m\u00e1scara de flanela com arma\u00e7\u00e3o de arame, que podia ser levada dentro de uma cartola, at\u00e9 um reservat\u00f3rio ornamental como um bule de ch\u00e1 para o \u00f3xido nitroso que estava voltando a ser usado. Alguns tinham bolas como os pulverizadores de perfume para bombear o ar no vidro com clorof\u00f3rmio, outros tinham esp\u00e9cies de manivelas que movimentavam engrenagens, ou bolsas de borracha como bolas de futebol, mas o franc\u00eas Louis Ombr\u00e9danne (1871-1956) usava uma bexiga de porco.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Seu compatriota Paul Bert (1830-86) em 1879 inventou o carro anest\u00e9sico, forte e hermeticamente fechado, com dez pequenas aberturas que podiam acomodar 12 pessoas, incluindo o paciente. A equipe cir\u00fargica ficava sujeita a uma grande press\u00e3o do ar e o paciente \u00e0 alta press\u00e3o do \u00f3xido nitroso da bolsa que ficava debaixo da mesa de opera\u00e7\u00e3o. O ar era refrigerado no ver\u00e3o e passava por igua quente no inverno, e quando come\u00e7ava a diminuir algu\u00e9m assobiava para avisar o homem encarregado da bomba, que ficava no lado de fora. O carro se movia sobre rodas e chegava a todos os hospitais de Paris, at\u00e9 que em 1883 os passageiros conseguiram jog\u00e1-lo na pilha de ferro velho. Os m\u00e9dicos tiveram mais sorte do que os tr\u00e9s balonistas que Paul Bert fez subir para estudar a inala\u00e7\u00e3o de oxig\u00eanio. S\u00f3 um deles voltou com vida.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Depois da I Guerra Mundial a anestesia passou a ser feita passando \u00f3xido nitroso comprimido e oxig\u00eanio de cilindros para o \u00e9ter e, \u00e0s vezes, clorof\u00f3rmio contido em vidros. Essa foi a inven\u00e7\u00e3o simples de \u201cCocky\u201d Boyle (1875-1941) que, com \u201cGloomy\u201d Hoover (1896-1986) adornou a anestesia no Hospital de S\u00e3o Bartolomeu, em Londres. Sir Ivan Magill (1888-1986) havia aplicado a anestesia, durante a guerra, para Sir Harold Gilles, que inventou a cirurgia pl\u00e1stica em Sidcup. Para evitar que o rosto deformado se tornasse um campo de batalha para o cirurgi\u00e3o e o anestesista, Magill inseria um tubo no nariz, que passava pelo c\u00e9u da boca, pela l\u00edngua e pelas cordas vocais at\u00e9 a traqu\u00e9ia. Desse modo n\u00e3o havia impedimento entre a parte inferior do cilindro de oxig\u00eanio e os alv\u00e9olos esponjosos dos pulm\u00f5es do paciente. Foi uma conveni\u00eancia muito bem recebida pelos anestesistas, que passavam muito tempo lutando para evitar que o paciente morresse<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">A despeito dos aparelhos, cada vez mais aperfei\u00e7oados, o anestesista continuava como a figura desprezada, homem do peda\u00e7o de pano e da garrafa, garrafa de clorof\u00f3rmio no bolso traseiro da sobrecasaca, peda\u00e7o de pano no outro bolso para pingar o anest\u00e9sico, ganhando 10% dos honor\u00e1rios do cirurgi\u00e3o o F\u00edgaro, o Admir\u00e1vel Crichton, o Jeeves do teatro operat\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">[<a href=\"javascript:history.go(-1)\">Voltar<\/a>]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A anestesia produziu aparelhos mais engenhosos at\u00e9 mesmo do que a horticultura. John Snow foi o primeiro anestesista profissional do mundo. 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