{"id":19089,"date":"2013-09-22T10:18:18","date_gmt":"2013-09-22T10:18:18","guid":{"rendered":"http:\/\/antonini.med.br\/blog\/?p=19089"},"modified":"2022-02-15T02:40:48","modified_gmt":"2022-02-15T02:40:48","slug":"as-honras-da-academia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonini.psc.br\/?p=19089","title":{"rendered":"As honras da Academia"},"content":{"rendered":"<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Em 1937 surgiu entre os mestres de Oxford o primeiro professor de anestesia da Europa, para grande ultraje de todo o corpo docente. O dinheiro veio de Lord Nuffield, que j\u00e1 havia escandalizado Oxford com a produ\u00e7\u00e3o em massa do autom\u00f3vel Morris Minor (Oxford \u00e9 o Quartier Latin de Cowley&#8221;, chique de morrer). Nuffield levou bola preta no clube de golfe local, por isso ele o comprou e instalou seu parceiro de golfe na Cadeira de Anestesia. O novo professor era Sir Robert Reynolds Macintosh (1897-1989), inventor do laringosc\u00f3pio aperfei\u00e7oado, que j\u00e1 havia provado sua habilidade administrando uma anestesia perfeita com g\u00e1s no seu benfeitor. Sir Robert tinha uma \u00f3tima cl\u00ednica em Harley Street com tr\u00eas m\u00e1quinas de g\u00e1s e dois Bentleys por anestesista, maldosamente chamada pelos invejosos de &#8220;Companhia Mayfair de G\u00e1s, Luta e sufoca\u00e7ao&#8221;. Ent\u00e3o o Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade criou anestesistas consultores como qualquer outra pessoa, e eles fundaram a Faculdade de Anestesia e, finalmente, seus membros chegavam ao hospital dirigindo carros iguais aos dos cirurgi\u00f5es.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">A Am\u00e9rica tinha um professor Ralph Milton waters (1883-1979), em Madison, Wisconsin. Ele introduziu o g\u00e1s ciclo-propano com as desvantagens de ser tremendamente explosivo e horrivelmente dispendioso. Tamb\u00e9m o \u201cPentotal\u201d, que mudou a terr\u00edvel indu\u00e7\u00e3o da anestesia de sufoca\u00e7\u00e3o controlada para uma pequena picada no bra\u00e7o. (Se o anestesista conseguia acertar a veia: &#8220;Voc\u00ea tomou g\u00e1s na sua opera\u00e7\u00e3o?&#8221; perguntou a mulher, no \u00f4nibus. \u201cN\u00e3o, eles n\u00e3o usam mais o g\u00e1s&#8221;, respondeu a amiga. \u201cUm cara chega, enfia uma agulha nas costas da sua m\u00e3o quatro ou cinco vezes, e voce dorme\u201d).<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\u201cA local\u201d era usada desde 1884, injetada no m\u00fasculo, em determinados nervos, na medula ou simplesmente passada na superf\u00edcie do olho, da l\u00edngua ou do nariz. O poder m\u00e1gico da coca\u00edna foi famosamente explorado pelo vienense Carl Koller (1857-1944), cirurgi\u00e3o de olhos. Se Freud nao tivesse sa\u00eddo de f\u00e9rias com sua noiva, na ocasi\u00e3o, teria se tornado um aclamado pioneiro anestesista e poupado ao mundo muita introspec\u00e7\u00e3o angustiosa.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Os anest\u00e9sicos para uso local eram muito usados porque produziam insensibilidade e paralisia sem os inconvenientes gerais do narc\u00f3tico e sem a necessidade de um h\u00e1bil anestesista. Por\u00e9m, a anestesia \u201clocal\u201d obstinadamente local e quase sempre o paciente prefere o sono, mais arriscado. O problema foi resolvido por Sir Walter Raleigh (1552-1618). Em 1595, viajando para o Orinoco, Sir Walter conheceu o veneno paralisante que os nativos da Am\u00e9rica do Sul usavam nas flechas, um xarope feito de uma trepadeira que mais tarde foi chamado de curare&#8221;. As mesas de opera\u00e7\u00e3o do mundo todo est\u00e3o agora repletas, dia e noite, de pessoas submetidas ao equivalente \u00e0 picada do dardo envenenado de uma zarabatana. A paralisa provocada oferece ao cirurgi\u00e3o um corpo fl\u00e1cido, enquanto uma pequena quantidade de algum anest\u00e9sico moderno, como o halotano, provoca um sono superficial. A extrema economia de anest\u00e9sico nas cesarianas, para n\u00e3o prejudicar o beb\u00ea, muitas vezes tem como resultado uma paciente completamente acordada e paralisada durante todo o tempo da opera\u00e7\u00e3o. Os tribunais concedem uma indeniza\u00e7\u00e3o t\u00e3o generosa a esse tipo de agonia mental e f\u00edsica que qualquer m\u00e3e que se queixe de ter passado por ela pode trazer \u00e0 lembran\u00e7a de toda uma enfermaria de parturientes que elas tamb\u00e9m sofreram sem merecer.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Essa combina\u00e7\u00e3o \u00e9pica de sono e paralisia que transformou a anestesia foi experimentada por Harold Randall Griffith (1896-1985) em Montreal, em 1942. Por\u00e9m, o escritor franc\u00eas Joris-Karl Huysmans foi quem teve a id\u00e9ia pela primeira vez. Em 1884, escrevendo sobre as observa\u00e7\u00f5es de Edgar Alan Poe a respeito da influ\u00eancia depressiva do medo sobre a vontade, Huysmans acrescenta:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><em>&#8220;Que afeta como um anest\u00e9sico <\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><em>que paralisa os sentidos e o curare que<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><em>inutiliza os nervos motores.&#8221;<\/em><\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Ora, ora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ningu\u00e9m sabe como os anest\u00e9sicos funcionam. Mas ningu\u00e9m sabe por que n\u00f3s dormimos.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">[<a href=\"javascript:history.go(-1)\">Voltar<\/a>]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1937 surgiu entre os mestres de Oxford o primeiro professor de anestesia da Europa, para grande ultraje de todo o corpo docente. 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