{"id":19128,"date":"2013-09-22T10:58:53","date_gmt":"2013-09-22T10:58:53","guid":{"rendered":"http:\/\/antonini.med.br\/blog\/?p=19128"},"modified":"2022-02-15T02:40:48","modified_gmt":"2022-02-15T02:40:48","slug":"a-helice-dupla","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonini.psc.br\/?p=19128","title":{"rendered":"A h\u00e9lice dupla"},"content":{"rendered":"<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Desde 1799, a cervejaria Green King, de Bury St. Edmunds, fornece cerveja Abbot aos \u00a0estudantes de gradua\u00e7\u00e3o de Cambridge. Ela flui deliciosamente no Eagle Pub, em Botoph Lane, perto do Laborat\u00f3rio Cavendish e na frente da Escola de Medicina, na Down Street, onde os mais inteligentes costumavam almo\u00e7ar. Para os estudantes de medicina, os f\u00edsicos e qu\u00edmicos do Cavendish eram um grupo diferente, que teve uma das muitas especula\u00e7\u00f5es mundiais confirmadas pela descoberta da h\u00e9lice dupla da mol\u00e9cula ADN.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">A estrutura foi descrita em 1953 pelo americano James Dewey Watson (1928) e o ingl\u00eas \u00a0Francis Harry Compton Crick (1916). A id\u00e9ia n\u00e3o era nova, e data de 1519 Francisco I da Fran\u00e7a, um ano antes do seu encontro com Henrique VIII no Field of the Cloth of Gold, come\u00e7ou a construir o Ch\u00e2teau de Chambord. No meio da torre da casa da guarda h\u00e1 uma magn\u00edfica escada em espiral como duas h\u00e9lices superpostas, que nunca se encontram. No centro h\u00e1 aberturas decorativas que permitem enxergar de \u00a0uma h\u00e9lice para a outra. Pode ser vista nos dias de visita dos Ch\u00e2teaux do Loire. (Muscadet \u00e9 excelente, e os rillettes de porceau berre Blanc.)<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">A escada dupla, em Cambridge, tinha no lado externo dois corrim\u00f5es sinuosos de fosfato de sacarose, os degraus s\u00e3o compostos das bases adenina, tiamina, guanina e citosina, unidades me pares pelo hidrog\u00eanio, que representa o eixo central. A espiral \u00e9 chamada ADN &#8211; \u00e1cido desoxirribonucl\u00e9ico. O ARN \u00e9 o padr\u00e3o para as prote\u00ednas que formam c\u00e9lulas do corpo, de desenhos variados, mas todas com escadas espirais de ADN.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">A descoberta do esqueleto arquitet\u00f4nico do ADN deu origem a um livro de suspense fascinante, leve, erudito, escrito por James Watson, no g\u00eanero de Dorothy Sayers, na \u00e9poca.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Os personagens s\u00e3o:<\/p>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li>(1) O pr\u00f3prio. O intruso de Chicago nos aconchegos e esnobes claustros de Cambridge. Extremamente inteligente, ambicioso, impetuoso, intuitivo, encantadoramente gauche, soci\u00e1vel, com uma queda para viagens ao exterior.<\/li>\n<li>(2) Francis Crick, de Mill Hill, em Londres, de fala r\u00e1pida e sonora com uma risada trovejante, entendido em teorias sobre a estrutura da prote\u00edna, incentivado por Watson para continuar a investigar as id\u00e9ias numerosas que nascem no seu c\u00e9rebro. Recentemente casado pela primeira vez morando perto do \u00fanico restaurante chin\u00eas de Cambridge.<\/li>\n<li>(3) Maurice Hugh Frederick Walkins (1916), biof\u00edco no King\u2019s College, no Strand, Londres. Solteiro e cavalheiro ingl\u00eas.<\/li>\n<li>(4) Rosalind Franklin (1920-56) A Dama Negra dos cromossomos. Newnham, depois pesquisa do carv\u00e3o. Especializou-se primeiro em metas e minerais. Usou essa t\u00e9cnica para investigar o ADN, independentemente. No laborat\u00f3rio Maurice Wilkins, do King\u2019s, que aceitava mulheres cientistas com a intrigada obedi\u00eancia com que os fazendeiros, durante a guerra, recebiam as Mo\u00e7as de Land De uma fam\u00edlia judia de banqueiros, ricos, morava elegante no bairro de South Ken e viajava para o exterior em terceira classe com pouco dinheiro, para conhecer o mundo, Solteira, n\u00e3o amada e, ao que parece ningu\u00e9m gostava dela.<\/li>\n<li>(5) Linus Carl Pauling (1901), professor de qu\u00edmica no Instituto de Tecnologa da Calif\u00f3rnia, candidato ao premio Nobel, vitima de McCarthy, a amea\u00e7a invis\u00edvel.<\/li>\n<\/ul>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">O enredo era a corrida para descobrir o mist\u00e9rio do ADN, que todos temiam fosse ganha pelo poderoso e rico americano Pauling. H\u00e1 ci\u00fames fascinantes, duplicidades, conspira\u00e7\u00f5es, vaidades e atitudes teatrais. Watson odiava os vestidos de Rosalind Franklin e seu mau gosto de intelectual afetada, criticava seus penteados, sua maquiagem e a achava mal-humorada, intolerante e rabugenta. Insistia em cham\u00e1-la de &#8220;Rosy&#8221;, o que a deixava furiosa. No Cavendish ele se consolava dizendo que \u201co melhor lugar para uma feminista era no laborat\u00f3rio de outra pessoa\u201d.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">A descri\u00e7\u00e3o de uma visita de Watson ao Kings, no stand:<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><em>&#8220;De repente Rosy veio do outro lado do balco do laborat\u00f3rio, que nos separava, e caminhou para mim. Temendo que, na sua f\u00faria me atacasse, eu&#8230; recuei rapidamente para a porta aberta.&#8221;<\/em><\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">O assalto &#8211; \u00a0quem sabe, assassinato? &#8211; foi evitado pela cavalheiresca interven\u00e7\u00e3o de Maurice Wilkins. Essa cena desagrad\u00e1vel jamais teria acontecido entre m\u00e9dicos, embora um comunicado do presidente na sociedade Real de Medicina, em 1963, mencione troca de socos entre Sir Peter Freyer e Hurry Fenwick, devido a uma controv\u00e9rsia sobre m\u00e9todos de remo\u00e7\u00e3o da pr\u00f3stata.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><b><\/b><b>\u00a0<\/b>O professor de f\u00edsica de Cavendish era Sir William Lawrence Bragg (1890-1971), pr\u00eamio Nobel de f\u00edsica com sua cristalografa dos raios X 1915. Como qualquer chefe de laborat\u00f3rio, ele devia preferir uma vida calma \u00e0s rusgas e entusiasmos dos assistentes mais novos, cujo trabalho, ele sabia por experi\u00eancia, podia estremecer o mundo ou ser completamente sem valor.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><b><\/b><b>\u00a0<\/b>Por\u00e9m, Sir Lawrence sentiu-se na obriga\u00e7\u00e3o de contribuir com um pref\u00e1cio para o livro desdenhoso de Watson, A h\u00e9lice dupla, no qual ele usa uma franqueza parecida com a do diarista Pepys. Evidentemente, ele era um mestre da atenua\u00e7\u00e3o solene.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><b><\/b><b>\u00a0<\/b>Watson venceu a corrida. Ou foi ejetado para o posto? A investiga\u00e7\u00e3o dos cristais de ADN por meio dos raios X, feita por Rosy, come\u00e7ou a desembara\u00e7ar sua estrutura molecular, entre janeiro de 1951 e junho de 1952. No dia 6 de fevereiro de 1953, Wilkins (de modo pouco elegante) mostrou uma das radiografas de Rosy para Watson, que exclamou: &#8220;Veja, aqui est\u00e1 a h\u00e9lice e aquela maldita mulher n\u00e3o a v\u00ea. Ent\u00e3o, talvez Rosy tenha sido a primeira a descobrir a id\u00e9ia reprodutora do s\u00e9culo. Mas, no meio do entusiasmo, ningu\u00e9m lembrou de perguntar. Ela nunca se conformou. Morreu de c\u00e2ncer na primavera de 1958, aos 37 anos. Trinta e quatro anos depois, a English Heritage resolveu por uma placa no seu apartamento.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><b><\/b><b>\u00a0<\/b>A H\u00e9lice Dupla foi brevemente proclamada por Watson e Crick num artigo de 900 palavras, na revista Nature, de abril de 1953. Por\u00e9m, Crick havia anunciado: \u201cN\u00f3s encontramos o segredo da vida!\u201d \u00a0tomando sua cerveja Abbot, durante almo\u00e7o no Eagle.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">[<a href=\"javascript:history.go(-1)\">Voltar<\/a>]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde 1799, a cervejaria Green King, de Bury St. Edmunds, fornece cerveja Abbot aos \u00a0estudantes de gradua\u00e7\u00e3o de Cambridge. Ela flui deliciosamente no Eagle Pub, em Botoph Lane, perto do Laborat\u00f3rio Cavendish e na frente da Escola de Medicina, na Down Street, onde os mais inteligentes costumavam almo\u00e7ar. 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