{"id":19772,"date":"2013-10-18T03:34:39","date_gmt":"2013-10-18T03:34:39","guid":{"rendered":"http:\/\/antonini.med.br\/blog\/?p=19772"},"modified":"2022-02-15T02:40:11","modified_gmt":"2022-02-15T02:40:11","slug":"guerra-civil-rima-com-brasil-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonini.psc.br\/?p=19772","title":{"rendered":"Guerra civil rima com Brasil"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Quando era crian\u00e7a, adorava um joguinho com l\u00e1pis e papel, em que aparecia uma s\u00e9rie de pontos num quadrado para interligar. Unindo ponto a outro, ao final surgia o gorila. E como era feio o bicho. E eu sorria&#8230;<!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tempo passou, fiquei adulto, mas permaneceram os olhos e as lembran\u00e7as do menino. Todavia, n\u00e3o sorrio mais. O que estou vendo hoje, interligando os pontos, \u00e9 muito perigoso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Resta apenas desmoralizar as For\u00e7as Armadas e o Supremo Tribunal Federal como institui\u00e7\u00f5es. Como na Jerusal\u00e9m do passado, n\u00e3o sobrar\u00e1 pedra sobre pedra, como um dia lamentou Jesus. Advir\u00e1 o momento em que o di\u00e1logo entre o governante e o povo ser\u00e1 direto, sem intermedi\u00e1rios. Teremos ent\u00e3o a flor do L\u00e1cio do totalitarismo&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O gorila estar\u00e1 vis\u00edvel e nu, como todo poder anticr\u00edstico. As inst\u00e2ncias intermedi\u00e1rias, as for\u00e7as que auxiliam a sociedade civil a se proteger de nada mais valer\u00e3o, a n\u00e3o ser para legitimar o estupro da na\u00e7\u00e3o. E nem ser\u00e1 necess\u00e1rio colocar a oposi\u00e7\u00e3o na cadeia, como queria Bakunin, porque neste pa\u00eds se opor \u00e9 ato que beira o mau gosto. Oposi\u00e7\u00e3o \u00e9 crime de lesa-majestade!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nenhuma resist\u00eancia acontecer\u00e1, porque todos se tornaram malandros e n\u00e3o v\u00e3o colocar a cabe\u00e7a de fora para ser decepada. E o pa\u00eds rumar\u00e1 ao pat\u00edbulo, sem a defesa de seus filhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Primeiro, tiveram que desmoralizar a classe pol\u00edtica que est\u00e1 misturada ao pior esterco da corrup\u00e7\u00e3o; em seguida, a atmosfera de inseguran\u00e7a nas cidades e nos campos se generalizou, com assassinatos e o patroc\u00ednio do crime organizado ao del\u00edrio geral das drogas; mais adiante, a destrui\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o, da sa\u00fade e dos valores morais, como causas antiquadas e \u201cc\u00edvicas\u201d a serem minimizadas cotidianamente pela m\u00eddia. Vemos at\u00e9 o presidente da Rep\u00fablica atirando camisinhas ao populacho, nem se importando em discutir uma correta pol\u00edtica de controle da natalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ali\u00e1s, reproduzindo-se feito moscas, os pobres e miser\u00e1veis ser\u00e3o o caldo de cultura para a futura sociedade planificada na vontade de um homem s\u00f3 e seus asseclas. Se isso n\u00e3o for fascismo, n\u00e3o sei como se chama&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estamos vivendo um filme de terror, em que os brasileiros s\u00e3o os mortos-vivos. Os movimentos sociais e sindicais permitidos v\u00e3o fazendo o jogo de cena, pr\u00f3prio das ditaduras, fingindo opini\u00e3o que n\u00e3o mais det\u00eam, emudecidos por verbas oficiais. Est\u00e3o calados e bem pagos, como est\u00e1tuas de sal (ou pr\u00e9-sal)&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estou emitindo essas considera\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o sei at\u00e9 quando poderei faz\u00ea-las. A sensa\u00e7\u00e3o de inutilidade, de malhar em ferro frio, \u00e9 onipresente, porque \u00e9 pr\u00f3prio das ditaduras desmoralizar qualquer oposi\u00e7\u00e3o, colocando o cr\u00edtico eventual numa situa\u00e7\u00e3o de paralisia psiqui\u00e1trica. Passou-se o tempo em que nos chamavam de \u201creacion\u00e1rios de direita\u201d. Agora, somos loucos mesmo, os que ousam remar contra a pretensa mar\u00e9 da maioria&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns de meus censores, candidamente, me perguntam: por que voc\u00ea critica tanto o presidente? E eu respondo; tenho 53 anos e nasci durante o governo Caf\u00e9 Filho, sujeito honest\u00edssimo e de car\u00e1ter ilibado. Aos catorze anos, na casa de meu pai, em plena ditadura, pude conversar por cinco minutos com um estadista, o ex-presidente Juscelino Kubitschek, e o SNI fotografava todos os que entravam no edif\u00edcio. Testemunhei o transcurso do regime militar, os governos Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique e o atual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cumprindo o princ\u00edpio da hist\u00f3ria brasileira contempor\u00e2nea, de que o futuro \u00e9 sempre pior que o passado, jamais vi em minha vida um presidente t\u00e3o descomposto e hilariante na capacidade de dizer asneiras e batatadas. Pensava que o mais folcl\u00f3rico, nesse sentido, teria sido o general Figueiredo, mas o atual, sem qualquer d\u00favida, bateu todos os recordes. Ele \u00e9 o anticristo da estrela de cinco pontas que ainda vai nos trazer enormes tristezas e constrangimentos. E me recuso a crer que o brasileiro se identifique tanto assim com ele por aus\u00eancia de esp\u00edrito cr\u00edtico, cultura e sabedoria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o me recordo de ter sentido tanto medo e inseguran\u00e7a como hoje em dia. Mudei do Rio de Janeiro, onde ouvia toda noite, em certo bairro nobre, o som das metralhadoras, como se estivesse ao lado de minha cama. Cansado de tantas balas perdidas por perto, resolvi morar em cidade pequena e felizmente ainda n\u00e3o conquistada pela bandidagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A despeito de tudo, n\u00e3o me calei. Quando ou\u00e7o falar que o MST est\u00e1 matando gente em Pernambuco e que protesta contra o fechamento de suas \u201cmadrassas\u201d, escolas de alfabetiza\u00e7\u00e3o terrorista e fundamentalista no Rio Grande do Sul, fico boquiaberto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sou do tempo em que os estudantes da UNE protestavam contra o regime. Hoje, saem ridiculamente \u00e0 rua para reivindicar meia-passagem nos \u00f4nibus e nos cinemas. Os estudantes \u201cprofissionais\u201d, empanturrados de verbas p\u00fablicas, calaram definitivamente a boca e parece que, em contrapartida, a juventude s\u00f3 se interessa mesmo por baladas regadas a maconha, crack, coca\u00edna, LSD e ecstasy, para esquecer a realidade m\u00f3rbida em que vivemos. E os combativos acad\u00eamicos trotskistas de ontem s\u00e3o apenas os universit\u00e1rios conformistas de hoje, que passam trotes violentos&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sou do tempo em que havia preocupa\u00e7\u00e3o com a proletariza\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas. Hoje, al\u00e9m de desequipadas e sem opini\u00e3o, v\u00e3o ter que curtir os expurgos futuros causados pela amplia\u00e7\u00e3o da lei da anistia e da abertura de arquivos acusat\u00f3rios sobre alguns oficiais de pijama, ainda vivos. \u00c9 claro que sob o nobre pretexto de n\u00e3o repetir a tortura, sempre hedionda, o governo procura criar um clima de exagero ao comparar o que ocorreu na ditadura militar com o holocausto nazista. A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 utilizar o er\u00e1rio para recompensar e enriquecer ex-guerrilheiros e alguns falsos terroristas queridinhos do governo vigente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, a protoditadura que a\u00ed est\u00e1, n\u00e3o satisfeita, quer ainda armar o circo da divis\u00e3o social. Como Mussolini, dividir a sociedade em compartimentos estanques para melhor governar e poder sobressair.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse contexto, temos o pobre, como entidade gen\u00e9rica eternamente defendida pelo salvador de plant\u00e3o, colocado em lit\u00edgio contra as classes dominantes, que nunca estiveram t\u00e3o bem protegidas e prestigiadas, como neste governo. Negros insurgem-se contra brancos, homossexuais contra heteros, \u00edndios e quilombolas contra agricultores, mulheres contra homens, deficientes f\u00edsicos contra n\u00e3o deficientes \u2013 enfim, onde possam se constituir subdivis\u00f5es sociais e cotas politicamente corretas, eis a\u00ed o solo f\u00e9rtil para a manuten\u00e7\u00e3o e continuidade do poder protofascista. Com a palavra, o Duce de Garanhuns: nunca neste pa\u00eds&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">M\u00e3os crispadas nos palanques, faces avermelhadas pelo porre da noite anterior, vai o governante cantando loas \u00e0s pr\u00f3prias realiza\u00e7\u00f5es, abrindo veredas para a sucessora predileta, um bal\u00e3o de ensaio caprichoso e sem carisma, fruto de teimosia que nenhum de seus ac\u00f3litos ousa contestar, a n\u00e3o ser atrav\u00e9s de uma anticandidatura lan\u00e7ada como eram os antigos crist\u00e3os \u00e0s feras famintas&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nunca neste pa\u00eds o ovo da serpente esteve t\u00e3o prestes a rebentar. A na\u00e7\u00e3o \u00e9 um paiol de p\u00f3lvora e n\u00e3o me admirarei se focos de inconformidade, diretamente proporcionais ao terrorismo de alguns movimentos sociais, come\u00e7arem a surgir. Afinal, guerra civil rima com Brasil e essa licen\u00e7a n\u00e3o pode deixar de ser acolhida com imensa preocupa\u00e7\u00e3o pelo poeta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podem dizer de mim o que quiserem, porque me acostumei a unir os pontos de um desenho de in\u00edcio incompreens\u00edvel e aparentemente inextric\u00e1vel. E o gorila que aparece hoje, tal como o diabo, \u00e9 grande ator na tarefa de iludir e fingir que n\u00e3o existe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como disse o ap\u00f3stolo Paulo, sentir como adulto faz com que esque\u00e7amos a imagem de crian\u00e7a, posta no espelho e vislumbremos a verdade, face a face. Mas ao inv\u00e9s de Deus, o que aparece no Brasil \u00e9 o gorila&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_____<br \/>\n* Waldo Lu\u00eds Viana \u00e9 escritor, economista, poeta e morre de medo de gorilas&#8230;<br \/>\nTeres\u00f3polis, 28 de fevereiro de 2009.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">[<a href=\"javascript:history.go(-1)\">Voltar<\/a>]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando era crian\u00e7a, adorava um joguinho com l\u00e1pis e papel, em que aparecia uma s\u00e9rie de pontos num quadrado para interligar. Unindo ponto a outro, ao final surgia o gorila. E como era feio o bicho. 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