{"id":20544,"date":"2013-12-08T07:40:35","date_gmt":"2013-12-08T07:40:35","guid":{"rendered":"http:\/\/antonini.med.br\/blog\/?p=20544"},"modified":"2022-02-15T02:39:47","modified_gmt":"2022-02-15T02:39:47","slug":"violadas-e-feridas-dentro-de-casa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonini.psc.br\/?p=20544","title":{"rendered":"Violadas e feridas dentro de casa"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Dentro de casa. A maioria dos molestadores sexuais de crian\u00e7as tem aconfian\u00e7a das v\u00edtimas: s\u00e3o seus pais, padrastos ou parentes<!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por Laura Diniz, Leonardo Coutinho e Diogo Shcelp \u2013 Ilustra\u00e7\u00e3o: Pedro Rubens<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fam\u00edlia e a pr\u00f3pria casa s\u00e3o a maior prote\u00e7\u00e3o que uma crian\u00e7a pode ter contra os perigos do mundo. \u00c9 nesse ninho de amor, aten\u00e7\u00e3o e resguardo que ela ganha confian\u00e7a para lan\u00e7ar-se sozinha, na idade adulta, \u00e0 grande aventura da vida. Mas nem todas as crian\u00e7as com fam\u00edlia e quatro paredes s\u00f3lidas em seu redor s\u00e3o felizes. Em vez de contarem com o amor de adultos respons\u00e1veis, elas sofrem estupros e car\u00edcias obscenas. Em lugar do cuidado que a sua fragilidade f\u00edsica e emocional requer, elas s\u00e3o confrontadas com surras e viol\u00eancia psicol\u00f3gica para que fiquem caladas e continuem a ser violadas por seus algozes impunes. No vasto card\u00e1pio de vilezas que um ser humano \u00e9 capaz de perpetrar contra um semelhante, o abuso sexual de meninas e meninos \u00e9 dos mais abjetos \u2013 em especial quando \u00e9 cometido por familiares. Para nosso horror, essa \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o mais comum do que a imagina\u00e7\u00e3o ousa conceber. Estima-se que, no Brasil, a cada dia, 165 crian\u00e7as ou adolescentes sejam v\u00edtimas de abuso sexual. A esmagadora maioria deles, dentro de seus lares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A frequ\u00eancia intoler\u00e1vel com que esse tipo de crime ocorre no pa\u00eds ficou evidente com a divulga\u00e7\u00e3o do caso da menina G.M.B.S., engravidada pelo padrasto aos 9 anos de idade, em Pernambuco. Sua m\u00e3e decidiu que ela, gr\u00e1vida de g\u00eameos, deveria ser submetida a um aborto. Quando, h\u00e1 tr\u00eas semanas, G. chegou ao hospital carregando uma sacola de brinquedos, os m\u00e9dicos encarregados do procedimento ficaram at\u00f4nitos: n\u00e3o tinham ideia da quantidade de medicamentos que deveriam usar numa gestante t\u00e3o diminuta \u2013 G. mede 1,36 metro e pesava ent\u00e3o 33 quilos. \u201cNunca hav\u00edamos atendido uma crian\u00e7a t\u00e3o pequena\u201d, disse o m\u00e9dico S\u00e9rgio Cabral. O caso de G. chamou aten\u00e7\u00e3o por causa da pol\u00eamica sobre o aborto a que, no fim, ela se submeteu, amparada pela lei que autoriza a interven\u00e7\u00e3o nas situa\u00e7\u00f5es em que a m\u00e3e corre risco de vida. J\u00e1 a gravidez de G., e mesmo a situa\u00e7\u00e3o que resultou nela, causa menos esc\u00e2ndalo no pa\u00eds do que deveria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As notifica\u00e7\u00f5es v\u00eam aumentando exponencialmente nos \u00faltimos anos gra\u00e7as, em boa parte, \u00e0 internet. A populariza\u00e7\u00e3o da rede mudou radicalmente tanto a pr\u00e1tica da pedofilia quanto o seu combate. Ela estimulou a propaga\u00e7\u00e3o desse crime ao facilitar a troca de material pornogr\u00e1fico infantil e aproximar os predadores de suas v\u00edtimas potenciais \u2013 inocentemente expostas em sites de relacionamento. Al\u00e9m disso, deu aos criminosos voz e uma certa sensa\u00e7\u00e3o de \u201clegitimidade\u201d, como explica a advogada Ma\u00edra de Paula Barreto. Em sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado sobre o assunto, ela cita um trecho do estudo das psic\u00f3logas italianas Anna Oliverio Ferraris e Barbara Graziosi: \u201cSe antes o ped\u00f3filo cultivava sua pervers\u00e3o na solid\u00e3o, hoje tem a possibilidade de conectar-se com outros como ele, de sentir-se apoiado e legitimado em seus desejos\u201d. At\u00e9 o ano passado, era comum encontrar no Orkut comunidades com t\u00edtulos t\u00e3o ostensivos como \u201cSou ped\u00f3filo\u201d. Dirigida \u00e0queles \u201cque gostam mesmo \u00e9 das meninas novinhas, sem rugas e com nenhuma experi\u00eancia\u201d, ela abrigava dezenas de participantes que faziam relatos de suas \u201cexperi\u00eancias\u201d e trocavam informa\u00e7\u00f5es sobre suas rela\u00e7\u00f5es com crian\u00e7as com a naturalidade dos que compartilham receitas de doces. Esse tipo de comunidade n\u00e3o deixou de existir, mas j\u00e1 n\u00e3o se apresenta de forma t\u00e3o escancarada. Vem disfar\u00e7ada sob siglas como \u201cpthc\u201d \u2013 ou \u201cpreteen hardcore\u201d (\u201dpornografia expl\u00edcita com pr\u00e9-adolescentes\u201d). Isso porque, se a rede ajudou a propagar o crime, tamb\u00e9m aumentou a visibilidade dos criminosos \u2013 bem como a sua puni\u00e7\u00e3o. De 2006 a 2008, a SaferNet Brasil, ONG destinada a combater a pedofilia na internet, recebeu den\u00fancias sobre 109.000 p\u00e1ginas eletr\u00f4nicas com conte\u00fado pornogr\u00e1fico infantil. As que revelavam ind\u00edcios de crime foram encaminhadas ao Minist\u00e9rio P\u00fablico e \u00e0 Pol\u00edcia Federal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do ponto de vista m\u00e9dico, a pedofilia \u00e9 um dist\u00farbio psicossexual \u2013 para que algu\u00e9m seja considerado ped\u00f3filo, basta que sinta desejo sexual por crian\u00e7as e nutra fantasias constantes com elas. J\u00e1 a lei s\u00f3 considera criminoso aquele que, da fantasia, parte para a a\u00e7\u00e3o. Em 2003, com a ado\u00e7\u00e3o do Disque-Den\u00fancia de Abuso e Explora\u00e7\u00e3o Sexual contra Crian\u00e7as e Adolescentes, o problema entrou na agenda do governo federal e passou a ser enfrentado com a ajuda das leis de combate ao turismo sexual. O Congresso se disp\u00f4s a tratar do tema no mesmo per\u00edodo, com a instaura\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o Parlamentar Mista de Inqu\u00e9rito da Explora\u00e7\u00e3o Sexual. A CPI da Pedofilia foi instalada em 2008, como consequ\u00eancia da Opera\u00e7\u00e3o Carrossel 1, da Pol\u00edcia Federal, que desbaratou uma rede de ped\u00f3filos na internet. O fato de a quase totalidade das iniciativas voltadas para o combate a esse crime ser muito recente ajuda a explicar a sobreviv\u00eancia de h\u00e1bitos monstruosos em algumas regi\u00f5es brasileiras. Em sua disserta\u00e7\u00e3o, a advogada Ma\u00edra Barreto lembra que, em determinadas comunidades ribeirinhas da Amaz\u00f4nia, o costume de um pai iniciar sexualmente suas filhas menores \u00e9 aceit\u00e1vel. Essa combina\u00e7\u00e3o de incesto e pedofilia pode explicar, inclusive, a origem de uma lenda regional: a do boto que, em noites de lua cheia, se transforma em homem e engravida as virgens incautas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos pesquisadores acreditam que o mito do boto serviria para encobrir os respons\u00e1veis por muitas das gesta\u00e7\u00f5es infantis que ocorrem na regi\u00e3o. \u201cGrande parte dos \u2018filhos de boto\u2019 \u00e9 fruto de incesto\u201d, diz a estudiosa. Em rela\u00e7\u00e3o ao total de nascimentos registrados no pa\u00eds entre 2003 e 2006, a porcentagem de crian\u00e7as nascidas de m\u00e3es com idade at\u00e9 14 anos \u00e9 de 1,47% no Norte. \u00c9 o mais alto \u00edndice entre as regi\u00f5es do pa\u00eds. Tamb\u00e9m \u00e9 sobretudo nessa parte do Brasil, em localidades como a Ilha de Carapaj\u00f3, no Par\u00e1, que a pr\u00e1tica do incesto com meninas \u00e9 vista como uma \u201ctradi\u00e7\u00e3o\u201d. \u201cCostuma-se dizer que \u2018quem planta a bananeira tem direito a comer o primeiro fruto\u2019\u2009\u201d, explica Maria do Carmo Modesto, l\u00edder religiosa que coordena trabalhos sociais na regi\u00e3o. \u201cOs pais se julgam donos do corpo das filhas, e at\u00e9 quem n\u00e3o concorda com isso n\u00e3o fala nada nem reage\u201d, diz. J\u00e1 no interior do Nordeste, n\u00e3o \u00e9 incomum que os \u201ccoron\u00e9is\u201d das pequenas localidades recrutem crian\u00e7as para satisfazer seus desejos bestiais. Uma vergonha.<br \/>\nVergonha \u00e9 tamb\u00e9m a palavra exata para definir o que aconteceu em Catanduva, em S\u00e3o Paulo, o estado mais desenvolvido da federa\u00e7\u00e3o. Em dezembro passado, a pol\u00edcia e o Minist\u00e9rio P\u00fablico da cidade receberam den\u00fancias de m\u00e3es afirmando que seus filhos foram abusados pelo borracheiro Jos\u00e9 Barra Nova de Mello, de 46 anos, conhecido como Z\u00e9 da Pipa. As crian\u00e7as ouvidas pela pol\u00edcia relataram que eram obrigadas a assistir a filmes pornogr\u00e1ficos e v\u00ea-lo nu. Algumas sofreram abusos corporais. Na casa do suspeito, foram encontradas dezenas de fotos e v\u00eddeos pornogr\u00e1ficos, inclusive com Z\u00e9 da Pipa como protagonista. Durante a investiga\u00e7\u00e3o, descobriu-se que William Mello de Souza, de 19 anos, sobrinho de Z\u00e9 da Pipa, e dois menores participavam do esquema de aliciamento. Os dois maiores foram presos e os menores, mandados para a Funda\u00e7\u00e3o Casa, antiga Febem. Todos foram denunciados pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico e a investiga\u00e7\u00e3o, encerrada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inconformadas com a superficialidade do processo, as m\u00e3es das crian\u00e7as abusadas procuraram a Justi\u00e7a para informar que havia muitos outros suspeitos, al\u00e9m dos quatro detidos. No novo inqu\u00e9rito, aberto por ordem judicial, as crian\u00e7as identificaram \u2013 por meio de fotos e das casas onde os abusos ocorreram \u2013 mais dois suspeitos, um m\u00e9dico e um empres\u00e1rio, e mencionaram a exist\u00eancia de outros quatro. Ou seja, cidad\u00e3os de classe m\u00e9dia alta. Foi nesse momento que ocorreu uma \u201ctrapalhada\u201d da pol\u00edcia que pode comprometer todas as provas da investiga\u00e7\u00e3o. Sem mandado judicial de busca e apreens\u00e3o para vasculhar a casa do m\u00e9dico acusado, a delegada Rosana Vanni ligou para o advogado dele e pediu autoriza\u00e7\u00e3o para entrar. Quando chegou l\u00e1, todos os acess\u00f3rios do computador estavam ligados, mas a CPU, pe\u00e7a que guarda a mem\u00f3ria, havia desaparecido. A delegada avisou o suspeito de que ele corria riscos e, assim, lhe deu chance de sumir com as provas do crime.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Promotores do Grupo de Atua\u00e7\u00e3o Especial de Repress\u00e3o ao Crime Organizado (Gaeco) de S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto, que abrange a regi\u00e3o de Catanduva, avaliam que a investiga\u00e7\u00e3o poderia ter sido conduzida de maneira menos traum\u00e1tica para as v\u00edtimas. Diz o promotor Jo\u00e3o Santa Terra Junior, do Gaeco: \u201cAs crian\u00e7as n\u00e3o deveriam ter sofrido tanto\u201d. A suspeita, hoje, \u00e9 que a rede de pedofilia na cidade do interior paulista era composta de, pelo menos, dez pessoas \u2013 que abusaram de cerca de quarenta crian\u00e7as, de 5 a 12 anos. \u201cAs investiga\u00e7\u00f5es n\u00e3o acabaram, e os n\u00fameros podem aumentar\u201d, afirma Santa Terra Junior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Representantes da CPI da Pedofilia e da Pol\u00edcia Federal foram a Catanduva para colher informa\u00e7\u00f5es e tentar descobrir se a rede local tinha ramifica\u00e7\u00f5es em S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto, S\u00e3o Paulo e Rond\u00f4nia. Os parlamentares ouviram depoimentos de suspeitos e familiares das v\u00edtimas, que falaram com o rosto coberto por m\u00e1scara, para preservar a identidade das crian\u00e7as. Apenas depois da press\u00e3o feita pela CPI, a prefeitura da cidade anunciou que montaria uma for\u00e7a-tarefa de psic\u00f3logos e assistentes sociais para dar apoio \u00e0s v\u00edtimas e suas fam\u00edlias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em geral, as v\u00edtimas de abuso sexual demoram a falar sobre o assunto ou jamais o fazem. Os motivos s\u00e3o v\u00e1rios: temem que seus familiares n\u00e3o acreditem na hist\u00f3ria, sentem vergonha do que aconteceu, t\u00eam medo do abusador e se sentem culpadas pela viol\u00eancia que sofrem. Mesmo quando o caso vai parar nos tribunais, \u00e9 comum que as crian\u00e7as tenham dificuldade para falar sobre o que as vitimou. Por isso, o Rio Grande do Sul montou uma estrutura que permite o chamado \u201cdepoimento sem dano\u201d. L\u00e1, as v\u00edtimas de pedofilia dep\u00f5em em ambiente com decora\u00e7\u00e3o infantil, diante de uma psic\u00f3loga ou assistente social. Ju\u00edzes, promotores e advogados ficam em uma sala \u00e0 parte, assistindo \u00e0 conversa por meio de um circuito de c\u00e2meras. \u201cAl\u00e9m de ser menos fustigante para a crian\u00e7a, ajuda a extrair depoimentos mais sinceros\u201d, diz o juiz Jos\u00e9 Antonio Dalto\u00e9, da 2\u00aa Vara de Inf\u00e2ncia e da Juventude de Porto Alegre. Em S\u00e3o Paulo, o Instituto de Psiquiatria do Hospital das Cl\u00ednicas, respons\u00e1vel pela elabora\u00e7\u00e3o de avalia\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas de crian\u00e7as suspeitas de abuso sexual, estimula os pequenos pacientes a participar de brincadeiras e a fazer desenhos que possam ajudar nas an\u00e1lises (s\u00e3o de alguns deles os desenhos que ilustram esta reportagem). Nesses rabiscos, \u00e9 comum as crian\u00e7as abusadas destacarem os pr\u00f3prios genitais ou os de integrantes da fam\u00edlia. \u201cIsso pode indicar uma curiosidade exacerbada pelo sexo, um comportamento erotizado ou ser uma forma de expressar aquilo que as incomoda ou que foi violado\u201d, explica o psic\u00f3logo Antonio Serafim. Quando conseguem descrever verbalmente os abusos, seus depoimentos impressionam pela crueza. Tr\u00eas exemplos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2022 \u201cMeu pai me pegava com for\u00e7a, segurava meus bra\u00e7os e tapava minha boca. Depois colocava uma coisa dura em mim. Ele me molhava com uma coisa quente.\u201d M., de 8 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2022\u201dEle me deu bombons e me levou para o terreno da casa dele. Tirou minha roupa de baixo e colocou o pipiu dele. Doeu muito, eu chorei e ele deu bombons de novo.\u201d C., de 7 anos, abusada pelo vizinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2022 \u201cQuando minha m\u00e3e n\u00e3o estava em casa, ele tirava minha roupa de baixo, passava a m\u00e3o e me abra\u00e7ava apertado. Passava a m\u00e3o nos meus peitos e amea\u00e7ava bater em mim se eu contasse para algu\u00e9m.\u201d R., de 9 anos, abusada pelo padrasto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tristemente famosa menina G., que est\u00e1 em um abrigo do governo de Pernambuco desde que saiu do hospital, at\u00e9 hoje n\u00e3o falou sobre os estupros a que foi submetida por tr\u00eas anos. A psic\u00f3logos e assistentes sociais que a acompanham, ela tamb\u00e9m n\u00e3o d\u00e1 ind\u00edcios de saber que passou por uma gravidez e um aborto. Quando estava ainda em Alagoinha, sua cidade natal, e a gesta\u00e7\u00e3o deu os primeiros sinais, sua m\u00e3e pensou que se tratasse de uma verminose. Mesmo depois de descoberta a gravidez, manteve a vers\u00e3o diante da filha: dizia a ela que os enjoos que sentia se deviam \u00e0 a\u00e7\u00e3o de parasitas. \u201cG. se comporta como se nada tivesse acontecido. Com o tempo, vai ter de come\u00e7ar a lidar com os fatos, mas s\u00f3 o desenvolvimento dela determinar\u00e1 como e quando\u201d, diz a coordenadora do abrigo, que, por quest\u00f5es de seguran\u00e7a, n\u00e3o pode ter a identidade revelada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Terapia, acolhimento familiar e o afastamento do agressor s\u00e3o os elementos que ajudam a crian\u00e7a v\u00edtima de abuso sexual a recompor os la\u00e7os de confian\u00e7a que se romperam com a viol\u00eancia. A convalescen\u00e7a de uma ferida ps\u00edquica na crian\u00e7a pode durar meses ou anos. Mas as cicatrizes deixadas pela trai\u00e7\u00e3o e pela humilha\u00e7\u00e3o infligidas por aqueles que deveriam proteg\u00ea-la, essas ficam para sempre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAcho que nunca vou superar- Lembro do cheiro do protetor solar que ele usava. N\u00e3o suporto senti-lo at\u00e9 hoje. Eu tinha 9 anos e treinava nata\u00e7\u00e3o com ele. Ele passava a m\u00e3o e o p\u00eanis no meu corpo, depois tremia, e eu achava que estava nervoso \u2013 n\u00e3o sabia que era uma ejacula\u00e7\u00e3o. Demorei a entender o que tinha acontecido, mas aquilo me afetou de v\u00e1rias maneiras. J\u00e1 mais velha, via minhas amigas tendo todo tipo de experi\u00eancia, mas eu n\u00e3o tinha coragem nem de beijar um menino \u2013 qualquer contato me deixava travada. Tive s\u00edndrome do p\u00e2nico, tomo antidepressivos e tenho medo do escuro at\u00e9 hoje, porque em uma das vezes ele me molestou num quarto escuro. No ano passado, quando o reencontrei no f\u00f3rum, senti um medo t\u00e3o grande que n\u00e3o conseguia parar de chorar. Se eu dissesse que \u00e9 um assunto resolvido, estaria mentindo. Acho que nunca vou superar. \u00c9 como se fosse uma cicatriz na minha alma.\u201d<br \/>\nJoanna Maranh\u00e3o, 21 anos, nadadora (Recife-PE)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSoube do meu filho pelo Orkut &#8211; Um dia, abri o Orkut do meu filho, que tinha 10 anos. Fiquei cega quando vi o e-mail de um homem que dava a entender que tinha feito o pior com ele. Conversamos, ele chorou e contou que o professor de inform\u00e1tica havia feito sexo oral nele e tentado beij\u00e1-lo. Senti \u00f3dio. Registrei queixa na pol\u00edcia e ele teve de fazer exame de corpo de delito. Foi horr\u00edvel, nunca vou esquecer a cena: meu filho deitado em posi\u00e7\u00e3o ginecol\u00f3gica para a per\u00edcia. Ele me odiou por faz\u00ea-lo passar por aquele constrangimento. Depois disso tudo, ficou agressivo. Come\u00e7ou a mexer com as meninas na escola e fazer brincadeiras bobas com os meninos. Acho que aquilo mexeu com a sua sexualidade. N\u00e3o tenho mais coragem de ficar longe dele e dos meus outros filhos, nem de deix\u00e1-los com ningu\u00e9m. Perdi a confian\u00e7a em todo mundo.\u201d<br \/>\nR.S.B.S., 33 anos, dona-de-casa (S\u00e3o Paulo-SP)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEle me levou para o quarto e me estuprou &#8211; Quando eu tinha 9 anos e estava vendo TV, meu padrasto come\u00e7ou a passar as m\u00e3os na minha perna. Pedi para ele parar, mas ele me levou para o quarto \u00e0 for\u00e7a, tirou a minha roupa e me estuprou. Quando acabou, disse que, se eu contasse para a minha m\u00e3e, ele a mataria e mataria tamb\u00e9m o meu irm\u00e3o, filho deles. Fez isso comigo quase todos os dias, enquanto minha m\u00e3e trabalhava. Quando falei que ia contar, ele me deu um soco, me bateu com o cinto e disse \u00e0 minha m\u00e3e que eu era malcriada. Ela me deu outra surra. Ele s\u00f3 parou quando eu fiquei menstruada, aos 13 anos. Contei para minha m\u00e3e aos 16, quando eles j\u00e1 estavam separados. Ela disse que, se durou tanto tempo, era porque eu devia estar gostando. Mas, depois de falar com ele, ela passou a acreditar em mim. Agora, \u00e9 meu irm\u00e3o que sempre volta triste quando vai visit\u00e1-lo. Eu pergunto por que e ele n\u00e3o responde.\u201d<br \/>\nT.S., 17 anos, estudante (Vit\u00f3ria-ES)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Crime e pol\u00edcia sem fronteiras<br \/>\nEm 2007, a Pol\u00edcia Federal deflagrou a primeira grande opera\u00e7\u00e3o de combate \u00e0 pedofilia na internet originada no Brasil, a Carrossel 1. Depois de rastrear por seis meses a troca de arquivos pornogr\u00e1ficos na rede, a PF obteve 103 mandados de busca e apreens\u00e3o em catorze estados, mais o Distrito Federal. Um sucesso em termos de alcance e um fiasco do ponto de vista do n\u00famero de presos: apenas tr\u00eas. Isso ocorreu porque, at\u00e9 ent\u00e3o, s\u00f3 se podia prender em flagrante quem estivesse enviando ou recebendo arquivos ilegais no momento em que fosse abordado pela pol\u00edcia. A posse de material pornogr\u00e1fico infantil n\u00e3o era crime. Hoje \u00e9. Al\u00e9m disso, as penas para quem produz, distribui, arquiva e vende material ilegal podem ser aplicadas de forma cumulativa: quem alicia uma crian\u00e7a para participar de um v\u00eddeo pornogr\u00e1fico, produz, guarda e vende o material, por exemplo, pode pegar de 20 a 40 anos de pris\u00e3o. A Carrossel 1 coletou informa\u00e7\u00f5es sobre criminosos de 78 pa\u00edses e contou com a ajuda da Interpol \u2013 a rede policial internacional, que tamb\u00e9m atuou no caso do canadense Christopher Paul Neil, fotografado abusando de crian\u00e7as e preso pela pol\u00edcia tailandesa em 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sob a prote\u00e7\u00e3o da batina<\/strong><br \/>\nNos Estados Unidos, a puni\u00e7\u00e3o \u00e0 pedofilia est\u00e1 seguindo uma tend\u00eancia j\u00e1 consolidada nos casos de estupro: a predomin\u00e2ncia dos processos c\u00edveis. Em vez de levar o assunto aos tribunais criminais, as v\u00edtimas de abuso est\u00e3o entrando com a\u00e7\u00f5es pedindo repara\u00e7\u00e3o em dinheiro pelo dano sofrido. H\u00e1 duas raz\u00f5es para isso. A primeira \u00e9 que, nos processos c\u00edveis, as v\u00edtimas precisam se expor menos do que nos criminais. A segunda \u00e9 que a maioria das v\u00edtimas s\u00f3 ganha consci\u00eancia dos abusos ocorridos na inf\u00e2ncia na idade adulta, quando o crime j\u00e1 prescreveu. Nos \u00faltimos cinquenta anos, apenas 10% dos padres acusados de abusos sexuais foram condenados. A maioria, como o padre Paul Shanley, que em 2005 pegou doze anos de cadeia, s\u00f3 pode ser julgada porque alguns estados americanos estenderam os prazos de prescri\u00e7\u00e3o. Ainda assim, continua sendo mais f\u00e1cil processar as institui\u00e7\u00f5es respons\u00e1veis por permitir os abusos, o que pode ser feito a qualquer momento. Por isso, a Igreja Cat\u00f3lica tornou-se a campe\u00e3 de processos por pedofilia nos Estados Unidos. Em dezembro do ano passado, uma diocese do estado de Vermont foi condenada a pagar 3,6 milh\u00f5es de d\u00f3lares para David Navari. Na d\u00e9cada de 70, quando era coroinha, Navari foi violentado duas vezes por um padre da diocese de Burlington, cujos superiores sabiam da propens\u00e3o \u00e0 pedofilia do religioso. No in\u00edcio de 2008, o mesmo tribunal condenou a diocese a pagar 8,7 milh\u00f5es de d\u00f3lares de indeniza\u00e7\u00e3o a outro ex-coroinha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em ambos os casos, a Igreja n\u00e3o conseguiu fechar um acordo financeiro para que as v\u00edtimas desistissem do processo. Um relat\u00f3rio sobre pedofilia divulgado neste m\u00eas pela Igreja Cat\u00f3lica americana mostra que, nos \u00faltimos cinquenta anos, a institui\u00e7\u00e3o j\u00e1 pagou 2,6 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em acordos, honor\u00e1rios de advogados e outros custos relacionados \u00e0 neglig\u00eancia com que tratou os abusos sexuais cometidos por alguns de seus integrantes. Para pagar a conta, ela est\u00e1 tendo de vender propriedades e sacrificar suas poupan\u00e7as. N\u00e3o h\u00e1 ind\u00edcios de que a propor\u00e7\u00e3o de ped\u00f3filos na Igreja seja maior do que no resto da popula\u00e7\u00e3o. Mas fica claro que, pelo n\u00famero de den\u00fancias, a postura da institui\u00e7\u00e3o, de acobertar os casos de abuso, bem como a excessiva confian\u00e7a depositada nos cl\u00e9rigos pelos pais das crian\u00e7as, facilitou enormemente a ocorr\u00eancia dos crimes.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">[<a href=\"javascript:history.go(-1)\">Voltar<\/a>]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dentro de casa. A maioria dos molestadores sexuais de crian\u00e7as tem aconfian\u00e7a das v\u00edtimas: s\u00e3o seus pais, padrastos ou parentes<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[27],"tags":[],"class_list":["post-20544","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonini.psc.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20544","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonini.psc.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonini.psc.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonini.psc.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonini.psc.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=20544"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antonini.psc.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20544\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":30118,"href":"https:\/\/antonini.psc.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20544\/revisions\/30118"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonini.psc.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=20544"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonini.psc.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=20544"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonini.psc.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=20544"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}