{"id":21074,"date":"2014-03-24T11:49:33","date_gmt":"2014-03-24T11:49:33","guid":{"rendered":"http:\/\/antonini.med.br\/blog\/?p=21074"},"modified":"2022-02-15T02:39:30","modified_gmt":"2022-02-15T02:39:30","slug":"o-colapso-da-civilizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonini.psc.br\/?p=21074","title":{"rendered":"O colapso da civiliza\u00e7\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Um novo trabalho rec\u00e9m-produzido por um trio de cientistas nos Estados Unidos, com financiamento parcial da Nasa, est\u00e1 causando imensa controv\u00e9rsia. Ele sugere que a civiliza\u00e7\u00e3o moderna pode estar \u00e0 beira de um colapso, da qual pode at\u00e9 n\u00e3o se recuperar mais.<!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assustou? Calma, n\u00e3o tire suas conclus\u00f5es t\u00e3o depressa. Primeiro vamos entender o que eles dizem e depois passamos a dissipar ao menos parte do pessimismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O artigo foi produzido por Safa Motesharrei, matem\u00e1tico da Universidade de Maryland, sua colega Eugenia Kalnay, climatologista da mesma institui\u00e7\u00e3o, e Jorge Rivas, cientista pol\u00edtico da Universidade de Minnesota. O trio criou um modelo matem\u00e1tico que tenta compreender o fen\u00f4meno gen\u00e9rico do colapso de civiliza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Retrospecto desanimador<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria nos ensina como emergem e naufragam grandes imp\u00e9rios e culturas, e cada um desses colapsos tem raz\u00f5es muito espec\u00edficas. No caso do Imp\u00e9rio Romano, por exemplo, temos o surgimento do cristianismo e as invas\u00f5es b\u00e1rbaras como causas preponderantes. Entre as civiliza\u00e7\u00f5es da Am\u00e9rica pr\u00e9-colombiana, h\u00e1 a chegada dos europeus ao continente, tecnologicamente superiores. Isso sem falar em sucessivas ascens\u00f5es e quedas de civiliza\u00e7\u00f5es em lugares como a Gr\u00e9cia, o Egito, a Mesopot\u00e2mia, a \u00cdndia e a China. Uma coisa que n\u00e3o faltou a nenhuma dessas sociedades foi um conjunto de causas bem definidas e historicamente reconhecidas que levaram \u00e0 cat\u00e1strofe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou seja, civiliza\u00e7\u00f5es parecem ser fen\u00f4menos transit\u00f3rios, sejam quais forem as raz\u00f5es de seu colapso. Por conta desse insistente e inc\u00f4modo desfecho, os pesquisadores liderados por Motesharrei come\u00e7aram a desconfiar que, al\u00e9m de causas particulares delineadas pelos processos hist\u00f3ricos, houvesse um mecanismo b\u00e1sico capaz de explicar o porqu\u00ea de todas as civiliza\u00e7\u00f5es em algum momento deca\u00edrem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eles ent\u00e3o partiram para o desenho de seu modelo matem\u00e1tico, chamado de HANDY (acr\u00f4nimo em ingl\u00eas para Din\u00e2mica Humana e da Natureza). \u00c9 basicamente uma tentativa de reduzir uma civiliza\u00e7\u00e3o a um conjunto pequeno de par\u00e2metros, divididos em duas categorias: popula\u00e7\u00e3o e recursos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso da popula\u00e7\u00e3o, uma divis\u00e3o simples de classes, entre ricos e pobres. Convenhamos: toda civiliza\u00e7\u00e3o que at\u00e9 hoje habitou a superf\u00edcie da Terra \u2014 inclusive as supostamente socialistas \u2014 tinha uma elite e um pov\u00e3o. Parece fazer sentido partir desse pressuposto, portanto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso dos recursos, eles combinaram numa \u00fanica unidade de medida, o eco-d\u00f3lar, a grana \u2014 que basicamente diferencia ricos e pobres \u2014 e a disponibilidade de recursos naturais (entre renov\u00e1veis e n\u00e3o-renov\u00e1veis).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Combinando as duas coisas em equa\u00e7\u00f5es din\u00e2micas, eles rodaram simula\u00e7\u00f5es de computador, avaliando o desempenho de in\u00fameras civiliza\u00e7\u00f5es fict\u00edcias. E descobriram o que talvez soe meio \u00f3bvio, diante dos fatos hist\u00f3ricos: a imensa maioria das civiliza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-igualit\u00e1rias, ou seja, divididas entre elite e pov\u00e3o, cedo ou tarde entra em colapso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo a simula\u00e7\u00e3o, o caminho que leva ao precip\u00edcio pode ter duas bases: escassez de m\u00e3o-de-obra e escassez de recursos. No primeiro caso, o processo se desenrola quando cria-se um abismo t\u00e3o grande entre ricos e pobres que, para manter os primeiros, os segundos morrem de fome. \u201cQue comam brioches\u201d, diria uma certa figura famosa pouco antes de um colapso igualmente c\u00e9lebre. E n\u00e3o sem motivo. Com o pov\u00e3o morrendo de fome, quem carrega o piano para os belezocas da elite? Sem quem realize os trabalhos exigidos para a manuten\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o, o dinheiro de nada vale, e no fim das contas a elite tamb\u00e9m se ferra. Fim da linha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No segundo caso \u2014 colapso por falta de recursos \u2013, o problema \u00e9 ainda mais \u00f3bvio. Mesmo que n\u00e3o haja grande desigualdade social, se n\u00e3o h\u00e1 natureza suficiente para manter todo mundo, a coisa degringola. Esse aspecto \u00e9 interessante porque mostra que mesmo uma sociedade ideal \u2014 igualit\u00e1ria \u2014 sofrer\u00e1 um colapso se n\u00e3o houver como manter sua popula\u00e7\u00e3o por tempo indefinido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entra em cena aquela palavrinha m\u00e1gica dos ambientalistas: \u201csustentabilidade\u201d. \u00c9 aquele neg\u00f3cio de que, se o mundo inteiro, com seus 7 bilh\u00f5es de habitantes, resolver consumir como um americano m\u00e9dio, o planeta Terra n\u00e3o vai dar nem pro come\u00e7o. Alguns mais pessimistas dizem que j\u00e1 estamos no momento consumindo mais do que o planeta pode nos dar e que o desequil\u00edbrio criado pela atividade humana s\u00f3 pode mesmo terminar num colapso retumbante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Certo. Convenhamos, pode muito bem ser esse o nosso destino, e se bobear n\u00e3o vai demorar at\u00e9 que o encontremos. Embora os autores do trabalho n\u00e3o digam com todas as letras que o nosso nome j\u00e1 est\u00e1 numa l\u00e1pide, seu artigo aponta que esse seria um desfecho mais do que poss\u00edvel. Prov\u00e1vel talvez seja a palavra exata.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As boas not\u00edcias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Calma, n\u00e3o \u00e9 o fim do mundo. Uma coisa que o modelo tamb\u00e9m mostra \u00e9 que existe caminho para a salva\u00e7\u00e3o. Com as interven\u00e7\u00f5es certas, as simula\u00e7\u00f5es mostram que \u00e9 poss\u00edvel impedir uma civiliza\u00e7\u00e3o de ir para a cova.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO colapso pode ser evitado, e a popula\u00e7\u00e3o pode atingir um estado estacion\u00e1rio em sua capacidade de porte m\u00e1xima se a taxa de deple\u00e7\u00e3o da natureza for reduzida a um n\u00edvel sustent\u00e1vel e se os recursos forem distribu\u00eddos de forma justa\u201d, afirmam os cientistas em seu artigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trocando em mi\u00fados: se aceitarmos n\u00e3o ter mais gente na Terra do que cabe, n\u00e3o explorarmos demais uma parte da popula\u00e7\u00e3o em favor de outra e n\u00e3o detonarmos os recursos naturais todos de uma vez, a civiliza\u00e7\u00e3o pode n\u00e3o colapsar e permanecer saud\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">D\u00edficil? Talvez. Mas vejo ind\u00edcios de que estamos no caminho certo. Sem querer soar excessivamente otimista, \u00e9 fato que os n\u00edveis de desigualdade t\u00eam ca\u00eddo em termos globais (ainda que localmente ainda vejamos v\u00e1rios abismos). E, se ainda n\u00e3o somos todos obcecados com sustentabilidade, pelo menos \u00e9 uma palavra que j\u00e1 ouvimos com frequ\u00eancia suficiente para nos darmos conta dessa preocupa\u00e7\u00e3o. \u00c9 decerto o come\u00e7o de um come\u00e7o de uma solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ademais, cabe lembrar que o modelo elaborado pelo trio de cientistas dos Estados Unidos \u00e9 uma vers\u00e3o bem simplificada de um sistema muito complexo. Por mais que eles aleguem que o HANDY explica o desaparecimento de diversas civiliza\u00e7\u00f5es que j\u00e1 colapsaram, existem algumas coisas que nos separam de todos os povos da Terra que nos precederam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em primeiro lugar, j\u00e1 somos a essa altura uma sociedade planet\u00e1ria. A internet liga o mundo inteiro numa aldeia global e a informa\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o se perde mais com facilidade, como na \u00e9poca em que queimaram a Biblioteca de Alexandria. Dif\u00edcil regredirmos a algo como uma Nova Idade M\u00e9dia, por mais que soframos as penas econ\u00f4micas e ecol\u00f3gicas de ter uma civiliza\u00e7\u00e3o aloprada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em segundo lugar, j\u00e1 n\u00e3o estamos mais limitados a um \u00fanico planeta. Fala-se em sustentabilidade e uso racional da natureza, mas em algumas d\u00e9cadas certamente estaremos explorando recursos naturais em outros objetos celestes. Em um s\u00e9culo ou dois, teremos col\u00f4nias na Lua e em Marte. O espa\u00e7o \u00e9 a sa\u00edda \u00f3bvia para o crescimento continuado de nossa civiliza\u00e7\u00e3o. E parece-me mais prov\u00e1vel que ela opte por essa rota do que simplesmente se resigne ao fracasso. Nossa esp\u00e9cie n\u00e3o gosta de perder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por essas raz\u00f5es todas, n\u00e3o consigo nos considerar um caso perdido. As solu\u00e7\u00f5es existem, e at\u00e9 as modelagens mais elementares da evolu\u00e7\u00e3o de civiliza\u00e7\u00f5es, como a HANDY, demonstram isso. O intelecto humano est\u00e1 a\u00ed para vencer desafios como esse. Se conseguirmos administrar nossa gan\u00e2ncia, temos tudo para chegar l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o custa lembrar que essa est\u00e1 longe de ser a primeira vez que algu\u00e9m sugere que a civiliza\u00e7\u00e3o moderna j\u00e1 era. Das previs\u00f5es pessimistas de Thomas Malthus no s\u00e9culo 18 ao Rel\u00f3gio do Ju\u00edzo Final mantido desde 1946 pelos cientistas at\u00f4micos, todos os catastrofistas se mostraram enganados. Mas s\u00f3 temos a agredec\u00ea-los. Ao agir como \u201cantiprofetas\u201d, eles nos alertam para problemas reais e nos ajudam a n\u00e3o errar. Motesharrei e seus colegas acabam de nos dar uma contribui\u00e7\u00e3o importante nesse sentido. E eu apostaria que, justamente por terem feito suas previs\u00f5es, eles errar\u00e3o redondamente. Ainda bem para n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por Salvador Nogueira &#8211; Mensageiro Sideral<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">[<a href=\"javascript:history.go(-1)\">Voltar<\/a>]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um novo trabalho rec\u00e9m-produzido por um trio de cientistas nos Estados Unidos, com financiamento parcial da Nasa, est\u00e1 causando imensa controv\u00e9rsia. 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