{"id":2829,"date":"2009-04-25T16:29:58","date_gmt":"2009-04-25T19:29:58","guid":{"rendered":"http:\/\/antonini.med.br\/blog\/?p=2829"},"modified":"2022-02-15T03:29:21","modified_gmt":"2022-02-15T03:29:21","slug":"a-decoreba-ja-vai-tarde-o-vestibular-pode-acabar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonini.psc.br\/?p=2829","title":{"rendered":"A decoreba j\u00e1 vai tarde: o vestibular pode acabar."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">O vestibular tradicional est\u00e1 acabando. Mas isso \u00e9 bom ou ruim?<!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1911, boa mem\u00f3ria era sin\u00f4nimo de intelig\u00eancia. At\u00e9 d\u00e1 para entender. Naquela \u00e9poca, quando o governo brasileiro tornou o vestibular obrigat\u00f3rio para universidades p\u00fablicas e particulares, conhecimento era coisa para poucos. Ter um ba\u00fa de informa\u00e7\u00f5es na cabe\u00e7a j\u00e1 permitia a qualquer um ser pelo menos um bom profissional. Ent\u00e3o n\u00e3o era surpresa que os vestibulares se preocupassem em testar basicamente a capacidade de memoriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um s\u00e9culo e muita decoreba depois ela continua sendo uma habilidade louv\u00e1vel, mas n\u00e3o \u00e9 nem nunca foi a mais importante \u2013 s\u00f3 a mais f\u00e1cil de testar numa prova. Coisas fundamentais, como o racioc\u00ednio e a criatividade, ainda s\u00e3o menos levadas em considera\u00e7\u00e3o do que deveriam na hora de selecionar quem entra na universidade. N\u00e3o \u00e9 de espantar, ent\u00e3o, que muita gente deseje a morte dos testes tradicionais. E n\u00e3o \u00e9 desculpa de estudante burro: o pr\u00f3prio Albert Einstein dizia que a obriga\u00e7\u00e3o de decorar f\u00f3rmulas foi a maior, e mais in\u00fatil, tortura pela qual passou na vida. Por isso mesmo todo mundo interessado no assunto vibrou quando o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o anunciou uma nova vers\u00e3o do Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio para substituir e unificar as provas das universidades federais. A exemplo do Enem antigo, ela promete exigir muito mais an\u00e1lise e racioc\u00ednio l\u00f3gico do que informa\u00e7\u00e3o bruta a ser decorada. Est\u00e1 a\u00ed a solu\u00e7\u00e3o para o tormento?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vamos ver. O MEC admitiu que inspirou-se no americano SAT (sigla em ingl\u00eas para Teste de Medi\u00e7\u00e3o Escolar), que \u00e9 aplicado 7 vezes por ano (por enquanto aqui \u00e9 s\u00f3 uma, mas a ideia \u00e9 alcan\u00e7ar 7 tamb\u00e9m). Em duas vers\u00f5es: uma de racioc\u00ednio, que avalia matem\u00e1tica, leitura cr\u00edtica e reda\u00e7\u00e3o, e outra que testa o aprendizado de mat\u00e9rias espec\u00edficas \u2013 f\u00edsica, hist\u00f3ria etc. Ambas reconhecidas pela qualidade das quest\u00f5es, que obrigam o aluno a de fato raciocinar. Mas a grama do vizinho n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o verde assim. Apesar de bem formulado, o SAT \u00e9 o terror mais profundo dos estudantes. Igualzinho ao que ocorre aqui, existe por l\u00e1 toda uma ind\u00fastria de cursinhos especializados em dicas e macetes para que os alunos se saiam bem nas provas. E h\u00e1 quem garanta que s\u00e3o necess\u00e1rios anos para esquecer o trauma do exame.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os chineses que o digam. Por l\u00e1, a press\u00e3o para se sair bem em uma prova semelhante, que tamb\u00e9m \u00e9 unificada e ocorre uma vez por ano, \u00e9 t\u00e3o forte que o vestibular est\u00e1 entre as causas das altas taxas de suic\u00eddio no pa\u00eds, de at\u00e9 3,5 milh\u00f5es de pessoas por ano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Dinamarca, a prova simplesmente n\u00e3o existe: o que conta s\u00e3o as notas obtidas durante todo o ensino m\u00e9dio. Se o curso pretendido \u00e9 engenharia, os examinadores levam mais em conta as notas do candidato nas aulas de matem\u00e1tica. Se a ideia \u00e9 cursar letras, n\u00e3o tem muita import\u00e2ncia ter passado raspando em qu\u00edmica por 3 anos. Um sistema correto, mas tamb\u00e9m desesperador: quem \u00e9 bom, mas repetiu o 1\u00ba colegial por alguma bobeira de adolesc\u00eancia, pode se complicar na hora da sele\u00e7\u00e3o. Como n\u00e3o d\u00e1 para voltar no tempo e mudar as notas, o jeito \u00e9 mudar de pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem sabe para a Argentina, a B\u00e9lgica ou a Fran\u00e7a. Nesses, o acesso \u00e9 garantido sem vestibular nem curr\u00edculo: basta ter um diploma de n\u00edvel m\u00e9dio, pelo menos para entrar nas faculdades menos concorridas (\u00e9 o que acontece na pr\u00e1tica por aqui tamb\u00e9m, j\u00e1 que os \u201cprocessos seletivos\u201d de algumas das nossas particulares permitiriam a matr\u00edcula de um babu\u00edno). Mas o acesso autom\u00e1tico n\u00e3o garante nada em alguns casos: na Argentina, ao fim do primeiro ano de curso, h\u00e1 uma prova para decidir quem segue na faculdade ou n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre as universidades mais disputadas do mundo, o m\u00e9todo \u00e9 mais complexo. \u00c9 o caso das que fazem parte da Ivy League, o grupo das 8 americanas de elite (entre as quais Yale, Harvard, Col\u00fambia e MIT). Elas at\u00e9 levam em conta as notas do SAT, mas tamb\u00e9m avaliam curr\u00edculos, exigem cartas de recomenda\u00e7\u00e3o, fazem entrevistas pessoais&#8230; at\u00e9 a personalidade do candidato entra em jogo. Tudo conta: participa\u00e7\u00e3o em gr\u00eamio estudantil, viagem de mochil\u00e3o, trabalhos comunit\u00e1rios&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Universidade de Col\u00fambia, por exemplo, o que os examinadores olham mesmo s\u00e3o os trabalhos que o candidato desenvolveu na escola nos 4 anos anteriores. Para conquistar uma vaga no MIT, entre outras coisas o aspirante precisa fazer uma lista das 5 atividades mais importantes que considera j\u00e1 ter feito na vida. E pode ainda optar por falar sobre isso ao vivo, em uma entrevista com um examinador da universidade, o que pode aumentar significativamente as chances de admiss\u00e3o.Tudo isso, por sinal, n\u00e3o existe s\u00f3 para o bem do aluno. Mas para o da pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o. Um diploma de Harvard foi importante para a carreira de Barack Obama. Mas ter formado um Barack Obama que virou presidente \u00e9 ainda mais valioso para Harvard, pois aumenta o prest\u00edgio que a universidade j\u00e1 tem. Da\u00ed a import\u00e2ncia de uma sele\u00e7\u00e3o realmente precisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas claro que, por melhor que seja, o novo Enem n\u00e3o vai transformar nossas federais em Harvards. Ser\u00e1 apenas mais justo que os vestibulares-decoreba de sempre. Mas, se voc\u00ea acha que isso vai deixar as coisas mais f\u00e1ceis, pode tirar o gabarito da chuva. Neste ano, cerca de 5 milh\u00f5es de estudantes v\u00e3o concluir o ensino m\u00e9dio no Brasil, mas h\u00e1 menos de 300 mil vagas nas faculdades p\u00fablicas, as mais concorridas. Nos 5 cursos mais disputados das 5 universidades top de linha, s\u00e3o s\u00f3 1 300 vagas. Um baita funil, que vai continuar duro de atravessar. Al\u00e9m disso, n\u00e3o importa o quanto o vestibular, ou mesmo a educa\u00e7\u00e3o como um todo, melhore: sempre vai haver um punhado de institui\u00e7\u00f5es preferidas por alunos, professores e pelo mercado de trabalho. O caso dos EUA \u00e9 emblem\u00e1tico: entre as mais de 4 mil universidades de l\u00e1, s\u00f3 aquelas 8 s\u00e3o objetos de desejo para valer. E, se \u00e9 numa das favoritas que algu\u00e9m quer entrar, n\u00e3o tem jeito: vai ter que ralar para mostrar m\u00e9rito. Ainda bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">[<a href=\"javascript:history.go(-1)\">Voltar<\/a>]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O vestibular tradicional est\u00e1 acabando. 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