{"id":28423,"date":"1997-09-12T04:14:51","date_gmt":"1997-09-12T04:14:51","guid":{"rendered":"https:\/\/antonini.med.br\/?p=28423"},"modified":"2022-02-15T03:30:16","modified_gmt":"2022-02-15T03:30:16","slug":"robert-koch","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonini.psc.br\/?p=28423","title":{"rendered":"Robert Koch"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto <strong>Pasteur<\/strong> era respons\u00e1vel por uma onda de entusiasmo nas Universidades europ\u00e9ias, entre os anos 1860 e 1870, o rec\u00e9m formado <strong>Heinrich Hermann<\/strong> <strong>Robert Koch<\/strong> (Clausthal, 11 de dezembro de 1843 \u2014 Baden-Baden, 27 de maio de 1910) estava fora desse mundo cient\u00edfico. Andava \u00e0 cavalo \u00e0 noite pelas estradas da Pr\u00fassia (atualmente parte integrante da Rep\u00fablica Federal da Alemanha), para atender \u00e0s mulheres de fazendeiros que davam \u00e0 luz. Era um mero m\u00e9dico de prov\u00edncia, que, para se casar com <strong>Emmy Freatz<\/strong>, pusera de lado a ambi\u00e7\u00e3o de ter uma vida de aventuras, longe dali.<!--more--><span id=\"more-6169\"><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"ngg-singlepic ngg-left alignleft\" title=\"Robert Koch\" src=\"http:\/\/antonini.com.br\/img\/670.jpg\" alt=\"Robert Koch\" width=\"353\" height=\"484\"\/>Quando fez 28 anos, sua mulher, economizando sobre as despesas do armaz\u00e9m, presenteou-o com um lindo aparelho \u2013 um microsc\u00f3pio. Sentia que o marido sacrificara, por ela seus sonhos juvenis e que se aborrecia com o <strong><em>\u201cblefe profissional da medicina\u201d <\/em><\/strong><em>(A express\u00e3o aqui utilizada e colocada em negrito e it\u00e1lico foi retirada da bibliografia consultada e transcrita em sua \u00edntegra. Refer\u00eancia n\u00famero 01)<\/em>, como chamava sua pr\u00e1tica cl\u00ednica e profissional. Com esse aparelho, Koch revolucionaria a ci\u00eancia e teria aventuras bem mais compensadoras do que teria tido no Taiti ou na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao ler alguns trabalhos de Pasteur, ficou interessad\u00edssimo pelo carb\u00fanculo e ao examinar o sangue enegrecido de animais mortos por este microrganismo, constatou que ali havia uma enormidade de filamentos ou bastonetes soltos. Ent\u00e3o, num laborat\u00f3rio improvisado, infetou ratos com sangue contaminado e neles apareceram os bastonetes. <strong>\u201cS\u00e3o seres vivos\u201d<\/strong>, imaginou Koch. Tentou v\u00e1rias provas, sem \u00eaxito. Um dia, colocou o humor v\u00edtreo de um olho de vaca sobre uma l\u00e2mina esterilizada e introduziu um fragmento infetado do ba\u00e7o de um rato. Cobriu-a com outra l\u00e2mina de vidro c\u00f4ncava, untada de vaselina, virou o conjunto de cabe\u00e7a para baixo e obteve uma gota pendente, aprisionada em uma bolsa est\u00e9ril. Conseguira a primeira cultura de microrganismos, inovando a t\u00e9cnica bacteriol\u00f3gica. Koch ficou 50 minutos de olho fixo no microsc\u00f3pio, e ent\u00e3o os bastonetes come\u00e7aram a se multiplicar. <strong>Estavam vivos! <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante oito dias, cultivou gera\u00e7\u00f5es e gera\u00e7\u00f5es sucessivas de bacilos. Depois voltou a inocul\u00e1-los nos ratos, e eles morriam de carb\u00fanculo com o sangue negro fervilhando de bastonetes. Antes de qualquer outro, esse m\u00e9dico de ro\u00e7a que se desprendeu dos dogmas e mecanicismos da medicina e resolveu pesquisar com o esp\u00edrito dos grandes alquimistas e farmac\u00eauticos, provara que uma determinada esp\u00e9cie de micr\u00f3bio causa uma esp\u00e9cie definida de doen\u00e7a. Com 34 anos de idade, ainda desconhecido, Koch embarcou para Breslau. Seu velho mestre <strong>Cohn<\/strong> auxiliou-o a fazer demonstra\u00e7\u00f5es que duraram tr\u00eas dias. Quando terminou, estava consagrado. 1880: o Governo chama-o para Berlim e oferece-lhe um belo laborat\u00f3rio. J\u00e1 por essa \u00e9poca todos os m\u00e9dicos da Europa s\u00f3 discutiam bacteriologia. Apareceram mil teorias, uma mais maluca que a outra. Mas a criatividade de Koch venceu a batalha. Junto com a <strong>Dr<sup>a<\/sup> Hesse<\/strong>, inventou a cultura s\u00f3lida de \u00e1gar-\u00e1gar e outros m\u00e9todos at\u00e9 hoje usados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto seus assistentes procuravam os agentes da <strong>difteria<\/strong> e da <strong>febre tif\u00f3ide<\/strong>, Koch se dedicava \u00e0 <strong>tuberculose. <\/strong>Mas nos tecidos doentes nada aparecia. Com infinita paci\u00eancia, Koch aplicou-lhes um corante, que fez aparecer em azul, bacilos muito pequenos e fin\u00edssimos. Conseguiu isol\u00e1-los e inocul\u00e1-los em animais sadios que contra\u00edram a tuberculose.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pouco antes, Pasteur afirmara que em breve estaria provada a origem microbiana da mol\u00e9stia e contra ele levantara-se toda classe m\u00e9dica de Paris, liderada pelo <strong>Dr. Pidoux,<\/strong> que afirmara: <strong><em>\u201cA tuberculose \u00e9 \u00fanica e m\u00faltipla ao mesmo tempo. Sua termina\u00e7\u00e3o consiste na destrui\u00e7\u00e3o infetante e necrobi\u00f3tica do tecido plasm\u00e1tico de um \u00f3rg\u00e3o, processando-se por diversos caminhos que o higienista e o m\u00e9dico devem esfor\u00e7ar-se<\/em> <em>por dominar\u201d.<\/em><\/strong> Exemplo de palavr\u00f3rio sem sentido. No dia 24 de mar\u00e7o de 1882, Koch anunciava sua descoberta: <strong>o bacilo causador da tuberculose<\/strong>, hoje designado por <strong><em>Micobacterium tuberculosis<\/em>,<\/strong> um<strong> bacilo \u00c1lcool-\u00e1cido-resistente (BAAR), <\/strong>universalmente conhecido e consagrado com o nome de <strong>Bacilo de Koch.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1883, a c\u00f3lera asi\u00e1tica bateu \u00e0s portas da Europa. Procedente da \u00cdndia, onde era end\u00eamica, atingiu e devastou Alexandria, no Egito. Koch foi para l\u00e1 com seus colaboradores, e Pasteur mandou dois assistentes. Um deles, o <strong>Dr. Thuillier<\/strong>, morreu durante as pesquisas, atacado da mol\u00e9stia. Koch, ao depositar flores sobre sua sepultura, disse: <strong><em>\u201cElas s\u00e3o muito simples, mas s\u00e3o de louros como as que d\u00e3o aos bravos\u201d<\/em><\/strong>(referindo-se \u00e0s flores). A seguir, foi \u00e0 \u00cdndia estudar o mal mais de perto e, em 1884, tendo vivido entre os infelizes col\u00e9ricos indianos, isolou o germe da c\u00f3lera, um vibri\u00e3o em forma de v\u00edrgula, e demonstrou como era transmitido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi nessa \u00e9poca que <strong>Pettenkofer<\/strong> realizou a bravata que o tornou c\u00e9lebre, ao referir-se aos meios de cultura em forma de caldo contendo vibri\u00f5es: <strong><em>\u201cEnt\u00e3o o senhor garante que esse caldo de bacilos me matar\u00e1 se eu o tomar?\u201d<\/em><\/strong> Perguntando e girando entre os dedos um tubo de ensaio contendo um caldo amarelo. O <strong>Dr. Koch<\/strong> respondeu muito s\u00e9rio: a dose contida no tubo era suficiente para matar de c\u00f3lera meio batalh\u00e3o de granadeiros. E ent\u00e3o, para o espanto dos membros da Academia Imperial de Medicina, em Berlim, onde a cena se desenrolava, o Professor Pettenkofer tomou um pequeno peda\u00e7o de p\u00e3o que levava consigo, derramou-lhe por cima o caldo do tubo e comeu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>\u201cPois lhe garanto, caro Dr. Koch, que vou at\u00e9 engordar com estes inofensivos bacilos\u201d,<\/em><\/strong> riu Pettenkofer. <strong><em>\u201cOs bacilos n\u00e3o causam doen\u00e7a nenhuma. Pega-se uma doen\u00e7a porque se est\u00e1 predisposto a ela. Os bacilos nada t\u00eam a ver com isso\u201d.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fato \u00e9 que Pettenkofer nunca pegou c\u00f3lera, nem demonstrou sintoma algum da doen\u00e7a. E, sempre que se encontrava com Koch, arreliava-o de bom humor: <strong><em>\u201cMuito bons seus bacilos, Dr. Koch. \u00d3timos para o ch\u00e1 das cinco com torradas\u201d.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A corajosa (ou inconsciente) demonstra\u00e7\u00e3o de Pettenkofer convenceu muita gente de que os bacilos n\u00e3o tinham nada a ver com a causa da c\u00f3lera. Com seu riso ir\u00f4nico e bem-humorado, Pettenkofer ia e vinha entre os m\u00e9dicos, dizendo <strong><em>\u201cOra, os bacilos\u201d.<\/em><\/strong> E sua boa sa\u00fade testemunhava por ele. Mas o fato \u00e9 que ele <strong>n\u00e3o<\/strong> tinha raz\u00e3o: Koch fizera uma descoberta fundamental na hist\u00f3ria das ci\u00eancias da sa\u00fade. Apenas, como se demonstraria depois, nem todas as pessoas s\u00e3o sens\u00edveis a qualquer doen\u00e7a, a qualquer hora. Existem resist\u00eancias naturais e adquiridas por imuniza\u00e7\u00e3o, que defendem as pessoas dos microsc\u00f3picos e onipresentes causadores das mol\u00e9stias e Pettenkofer era resistente ao bacilo da c\u00f3lera. A hist\u00f3ria se encarregou de provar que este estava enganado, apesar de sua coragem. Coragem que n\u00e3o era, n\u00e3o \u00e9, e jamais ser\u00e1 rara entre os cientistas. V\u00e1rios deles se auto-inocularam para provar suas hip\u00f3teses, e muitos morreram nos anos her\u00f3icos da bacteriologia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1890, Koch pensou ter realizado a mais importante descoberta de sua vida: a <strong>tuberculina<\/strong>, subst\u00e2ncia para curar a tuberculose. Seu grande prest\u00edgio lhe valeu cr\u00e9dito imediato. Assim, a subst\u00e2ncia foi fabricada e aplicada com muitas esperan\u00e7as, pois nesse tempo a tuberculose literalmente devastava a Europa. Mas a tuberculina foi um fracasso como rem\u00e9dio. Serviu apenas para criar um teste hoje conhecido como <strong>Rea\u00e7\u00e3o de Mantoux<\/strong> (o nome de seu descobridor), que indica a presen\u00e7a da mol\u00e9stia. V\u00e1rios bacteriologistas sofreram reveses desse tipo. Al\u00e9m de Koch, <strong>Pasteur, \u00c9mile Roux <\/strong>e <strong>Paul Ehrlich <\/strong>tiveram graves contratempos em suas pesquisas. Mas Koch ficou abalad\u00edssimo. Ele ansiava por um m\u00e9todo eficiente para combater os micr\u00f3bios. Fora seu sonho desde os tempos de m\u00e9dico de ro\u00e7a, em que via as pessoas morrerem de difteria e percebia quanto a medicina era impotente. Os trabalhos de Koch, no entanto, permitiram que outros cientistas, baseados em seus m\u00e9todos, atinassem com maneiras eficientes de combater os bacilos que descobrira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A curiosidade cient\u00edfica de Robert Koch n\u00e3o arrefeceu at\u00e9 os \u00faltimos dias, quando ainda trabalhava energicamente. Se algum admirador o incensava, erguia os olhos do microsc\u00f3pio e dizia: <strong><em>\u201cNada fiz de especial. Apenas trabalhei com afinco\u201d. <\/em><\/strong>E voltava \u00e0 sua tarefa, dizendo ainda <strong><em>\u201cque a vida \u00e9 curta e o trabalho \u00e9 tanto\u201d..<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 27 de maio de 1910 <strong>Robert Koch<\/strong> passou ao Oriente Eterno, da mesma forma que <strong>Pasteur<\/strong>, deixando a vida e entrando para a hist\u00f3ria da humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">[<a href=\"javascript:history.go(-1)\">Voltar<\/a>]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto Pasteur era respons\u00e1vel por uma onda de entusiasmo nas Universidades europ\u00e9ias, entre os anos 1860 e 1870, o rec\u00e9m formado Heinrich Hermann Robert Koch (Clausthal, 11 de dezembro de 1843 \u2014 Baden-Baden, 27 de maio de 1910) estava fora &hellip; <a href=\"https:\/\/antonini.psc.br\/?p=28423\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[27],"tags":[],"class_list":["post-28423","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonini.psc.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/28423","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonini.psc.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonini.psc.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonini.psc.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonini.psc.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=28423"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/antonini.psc.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/28423\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":28425,"href":"https:\/\/antonini.psc.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/28423\/revisions\/28425"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonini.psc.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=28423"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonini.psc.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=28423"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonini.psc.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=28423"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}