{"id":603,"date":"2008-11-15T19:43:09","date_gmt":"2008-11-15T19:43:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.antonini.med.br\/blog\/?p=603"},"modified":"2022-02-15T03:29:57","modified_gmt":"2022-02-15T03:29:57","slug":"ai-dos-que-creem-no-imperio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonini.psc.br\/?p=603","title":{"rendered":"Ai dos que cr\u00eaem no Imp\u00e9rio"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Ainda que muito breve, a guerra entre Ge\u00f3rgia e R\u00fassia revelou algo chocante para o pensamento convencional. Menos de vinte anos ap\u00f3s vencerem a Guerra Fria, os EUA j\u00e1 perderam a condi\u00e7\u00e3o de poder mundial solit\u00e1rio. Na verdade, deixaram at\u00e9 mesmo de ser superpot\u00eancia&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Immanuel Wallerstein<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(23\/08\/2008)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mundo assistiu a uma mini-guerra no C\u00e1ucaso este m\u00eas. A ret\u00f3rica, embora apaixonada, foi muito irrelevante. A geopol\u00edtica \u00e9 uma s\u00e9rie gigantesca de jogos de xadrez a dois, nos quais os jogadores buscam vantagens de posi\u00e7\u00e3o. Nestes jogos, \u00e9 crucial saber as regras que permitem os movimentos. Cavalos n\u00e3o podem mover-se em diagonal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De 1945 a 1989, o principal jogo de xadrez era jogado entre os Estados Unidos e a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Era conhecido como Guerra Fria, e as regras b\u00e1sicas eram chamadas \u201cYalta\u201d. A mais importante delas dizia respeito \u00e0 linha que dividia a Europa em duas zonas de influ\u00eancia. Foi chamada por Winston Churchill de \u201cCortina de Ferro\u201d e ia de Stettin a Trieste. A regra era: n\u00e3o importava quanto conflito fosse provocado na Europa pelos pe\u00f5es, eles n\u00e3o deveriam provocar uma guerra real entre os Estados Unidos e a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. E ao fim de cada epis\u00f3dio de conflito, as pe\u00e7as deveriam retornar para os postos de onde haviam sa\u00eddo. Esta regra foi observada meticulosamente at\u00e9 o colapso do comunismo em 1989, epis\u00f3dio marcado notoriamente pela destrui\u00e7\u00e3o do muro de Berlim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 perfeitamente claro, como todo o mundo observou na \u00e9poca, que as regras de Yalta foram revogadas em 1989, e que o jogo entre os Estados Unidos e a R\u00fassia (a partir de 1991) mudou radicalmente. O maior problema desde ent\u00e3o \u00e9 que os Estados Unidos n\u00e3o compreenderam bem as novas regras. Eles proclamaram a si pr\u00f3prios \u2014 e foram proclamados por outros \u2014 a superpot\u00eancia solit\u00e1ria. Em termos de regras de xadrez isto foi interpretado como se os estivessem livres para mover-se pelo tabuleiro da forma que bem entendessem. E, em particular, para trazer os antigos pe\u00f5es sovi\u00e9ticos para sua esfera de influ\u00eancia. Sob o governo Clinton, e de forma mais espetacular sob o de George Bush, os Estados Unidos foram levando o jogo dessa forma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Havia um \u00fanico problema: os Estados Unidos n\u00e3o eram a superpot\u00eancia solit\u00e1ria; e sequer, uma super-pot\u00eancia. O fim da Guerra Fria fez com que deixassem de ser uma das duas superpot\u00eancias, para se tornarem um Estado forte, em uma redistribui\u00e7\u00e3o verdadeiramente multilateral de poder real, no sistema inter-estatal. Muitos pa\u00edses grandes s\u00e3o agora capazes de jogar os seus pr\u00f3prios jogos de xadrez sem ter de pedir licen\u00e7a \u00e0s duas super-pot\u00eancias de outrora. E eles come\u00e7aram a fazer isso.<br \/>\nDerrotada a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, Clinton age para conquistar seus pe\u00f5es e ampliar a OTAN. Mas o grande del\u00edrio veio com Bush, que renegou acordos, invadiu o Iraque e quis controlar a \u00c1sia Central\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Duas grandes decis\u00f5es geopol\u00edticas foram tomadas nos anos de Clinton. Primeiro, os Estados Unidos for\u00e7aram bastante, e foram relativamente bem-sucedidos, para incorporar os antigos sat\u00e9lites sovi\u00e9ticos do Leste Europeu \u00e0 OTAN. Tais pa\u00edses estavam ansiosos por este ingresso, ainda que os Estados-chave da Europa Ocidental \u2014 Alemanha e Fran\u00e7a \u2014 relutassem de algum modo. Percebiam que a manobra norte-americana tamb\u00e9m os transformava em alvo, ao limitar a liberdade de a\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica que rec\u00e9m haviam adquirido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda decis\u00e3o estrat\u00e9gica norte-americana era tornar-se parte ativa nos realinhamentos de fronteiras na antiga Rep\u00fablica Federal da Iugosl\u00e1via. Isto levou-os a sancionar \u2014 e refor\u00e7ar, com suas tropas \u2014 a secess\u00e3o de facto do Kosovo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 S\u00e9rvia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo sob Yeltsin, a R\u00fassia sentia-se descontente com estas duas iniciativas geopol\u00edticas norte-americanas. No entanto, a desordem politica e econ\u00f4mica naqueles anos era t\u00e3o grande que o m\u00e1ximo que podiam fazer era reclamar \u2014 deve-se dizer que de um modo um tanto d\u00e9bil&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">George W. Bush e Vladimir Putin assumiram o poder mais ou menos simultaneamente. Bush decidiu levar adiante as t\u00e1ticas da pot\u00eancia solit\u00e1ria (em que os Estados Unidos decidem por si mesmos como mover suas pe\u00e7as) com muito mais aud\u00e1cia do que Clinton havia feito. Em 2001, recuou do tratado anti-m\u00edsseis assinado com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, em 1972. Depois, anunciou que os Estados Unidos n\u00e3o se prontificariam a ratificar os novos tratados assinados por Clinton em 1996; o Tratado de supress\u00e3o dos testes nucleares [Compreensive Test Ban], e as mudan\u00e7as acordadas para o tratado de desarmamento nuclear SALT II. Para completar, comunicou que Washington manteria seu projeto de militariza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o, conhecido como &#8220;escudo anti-m\u00edsseis&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, \u00e9 claro, Bush invadiu o Iraque em 2003. Como parte deste envolvimento, os Estados Unidos vislumbraram e obtiveram direitos \u00e0s bases militares e de sobrev\u00f4o nas rep\u00fablicas da \u00c1sia Central \u2014 que anteriormente faziam parte da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Al\u00e9m disso, promoveram a constru\u00e7\u00e3o de \u00f3leodutos e gasodutos que procuravam tornar desnecess\u00e1rios os sistemas russos. E finalmente entraram em acordo com a Pol\u00f4nia e a Rep\u00fablica Tcheca para estabelecer pontos de defesa de m\u00edsseis, sob alega\u00e7\u00e3o de defesa contra o Ir\u00e3. A R\u00fassia, por\u00e9m, os viu como voltados contra si.<br \/>\nDuas causas imediatas explicam a guerra. Diante da independ\u00eancia do Kosovo, a R\u00fassia reivindicou direitos iguais. E, sem ex\u00e9rcito, Saakshvilli acreditou no conto do poder unilateral de Washington\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Putin estava disposto a resistir com mais for\u00e7a que Yeltsin. Como jogador prudente, por\u00e9m, ele se preocupou primeiro em fortalecer sua base, restabelecendo a autoridade central e revigorando o aparato militar russo. Neste per\u00edodo, as mar\u00e9s da economia mundial mudaram, e a R\u00fassia tornou-se de repente um rica e poderosa controladora de reservas e linhas de abastecimento de petr\u00f3leo e g\u00e1s natural, dos quais os pa\u00edses ocidentais dependem fortemente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O presidente russo come\u00e7ou come\u00e7ou a agir. Negociou acordos com. Manteve rela\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas com o Ir\u00e3. Come\u00e7ou a pressionar os Estados Unidos para fora das bases militares na Asia Central. E se posicionou firmemente contra a extens\u00e3o da OTAN em duas zonas estrat\u00e9gicas: Ucr\u00e2nia e Ge\u00f3rgia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica deflagrou movimentos separatistas em diversas de suas antigas rep\u00fablicas, inclusive a Ge\u00f3rgia. Quando, em 1990, a Ge\u00f3rgia buscou acabar com o status de autonomia das zonas \u00e9tnicas n\u00e3o-georgianas, estas imediatamente proclamaram-se Estados independentes. N\u00e3o foram reconhecidos, mas a R\u00fassia garantiu sua autonomia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As causas imediatas para a mini-guerra destes dias t\u00eam dupla origem dupla. Em fevereiro, Kosovo institucionalizou sua autonomia de facto. Este movimento foi apoiado por e reconhecido pelos Estados Unidos e por boa parte dos pa\u00edses europeus. A R\u00fassia alertou, na \u00e9poca, que a l\u00f3gica deste movimento aplicava-se igualmente \u00e0s secess\u00f5es de facto nas antigas rep\u00fablicas sovi\u00e9ticas. Na Ge\u00f3rgia, a R\u00fassia agiu imediatamente, pela primeira vez, reconhecendo a independ\u00eancia de jure da Oss\u00e9tia do Sul, em resposta direta aos fstos em Kosovo, Em abril, os Estados Unidos propuseram, durante reuni\u00e3o da OTAN, que a Ge\u00f3rgia e a Ucr\u00e2nia fossem recebidas, em um plano de ades\u00e3o chamado Membership Action Plan. Alemanha, Fran\u00e7a, e o Reino Unido opuseram-se a isso, alegando que seria uma provoca\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00fassia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neoliberal e fortemente pr\u00f3-Washington, o presidente da Ge\u00f3rgia, Mikhail Saakashvili, estava agora desesperado. Ele deu-se conta de que a reafirma\u00e7\u00e3o da autoridade georgiana na Oss\u00e9tia do sul (e na Abkh\u00e1zia) poderia perder-se para sempre. Aproveitou-se de um momento em que a R\u00fassia estava supostamente desatenta (Putin, agora primeiro-ministro nas Olimp\u00edadas; o presidente Dmitri Medvedev de f\u00e9rias) para invadir a Oss\u00e9tia do Sul. Seu ex\u00e9rcito fracassou completamente, como era de esperar. Mas Saakashvili imaginou que estivesse for\u00e7ando a m\u00e3o dos EUA (ali\u00e1s, da Alemanha da Fran\u00e7a tamb\u00e9m).<br \/>\nComo nota ir\u00f4nica, a Ge\u00f3rgia, uma das \u00faltimas aliadas dos Estados Unidos na coaliz\u00e3o no Iraque, retirou todos os 2 mil soldados que ainda mantinha por l\u00e1\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao inv\u00e9s disso, ele teve uma resposta imediata da for\u00e7a militar russa, que esmagou a pequena armada georgiana. De George W. Bush, obteve ret\u00f3rica. Mas afinal de contas, o que Bush poderia fazer? Os Estados Unidos n\u00e3o s\u00e3o uma super-pot\u00eancia. Suas for\u00e7as armadas est\u00e3o atoladas em duas guerras sem perspectivas no Oriente M\u00e9dio. E, mais importante que tudo, eles precisam muito mais da R\u00fassia do que o contr\u00e1rio. O ministro de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores russo, Sergei Lavrov, frisou, num artigo publicado pelo Financial Times, que a R\u00fassia \u00e9 um &#8220;parceiro do Ocidente no Oriente M\u00e9dio, Ir\u00e3 e Cor\u00e9ia do Norte\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A R\u00fassia tamb\u00e9m controla, em ess\u00eancia, o abastecimento de g\u00e1s da Europa Ocidental. N\u00e3o por acaso, foi o presidente Sarkozy da Fran\u00e7a \u2014 e n\u00e3o Condolezza Rice \u2014 quem negociou a suspens\u00e3o do conflito. No acordo firmado entre os dois pa\u00edses, a Ge\u00f3rgia faz duas concess\u00f5es essenciais. Compromete-se em n\u00e3o mais utilizar a for\u00e7a contra a Oss\u00e9tia do Sul, e aceita um documento que n\u00e3o faz nenhuma refer\u00eancia a sua integridade territorial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A R\u00fassia saiu, portanto, muito mais forte que antes. Saakashvili apostou tudo o que tinha e est\u00e1 agora geopoliticamente falido. Como nota ir\u00f4nica, a Ge\u00f3rgia, uma das \u00faltimas aliadas dos Estados Unidos na coaliz\u00e3o no Iraque, retirou todos os 2 mil soldados que ainda mantinha por l\u00e1. Estas tropas jogaram um papel importante nas \u00e1reas xiitas, e agora precisam ser substitu\u00eddas por tropas norte-americanas, que ter\u00e3o que deixar outras \u00e1reas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem joga o xadrez geopol\u00edtico precisa conhecer suas regras. Do contr\u00e1rio, corre o risco de ficar emparedado.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">[<a href=\"javascript:history.go(-1)\">Voltar<\/a>]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ainda que muito breve, a guerra entre Ge\u00f3rgia e R\u00fassia revelou algo chocante para o pensamento convencional. Menos de vinte anos ap\u00f3s vencerem a Guerra Fria, os EUA j\u00e1 perderam a condi\u00e7\u00e3o de poder mundial solit\u00e1rio. 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