{"id":756,"date":"2008-11-21T14:35:05","date_gmt":"2008-11-21T14:35:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.antonini.med.br\/blog\/?p=756"},"modified":"2022-02-15T03:29:57","modified_gmt":"2022-02-15T03:29:57","slug":"quando-os-estados-unidos-foram-nazistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonini.psc.br\/?p=756","title":{"rendered":"Quando os Estados Unidos foram nazistas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"content\">Em Compl\u00f4 contra a Am\u00e9rica o escritor norte-americano Philip Roth revela o lado fascista de seu pa\u00eds. Num romance que \u00e9 bem mais que fic\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, ele imagina o que teria acontecido se os EUA tivessem se aliado a Hitler em 1940&#8230;<!--more--><\/span><\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\"><span class=\"content\"><strong>Guy Scarpetta<\/strong><\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o se reescreve a hist\u00f3ria\u201d. O ditado vale, certamente, para todos \u2013 exceto para os romancistas, a quem ningu\u00e9m impede de imaginar o que poderia ter acontecido. Quando se trata de um escritor do quilate de Philip Roth, isso pode at\u00e9 ser o ponto alto do romance, o mais instigante, mas tamb\u00e9m o mais perturbador e mais adequado para sacudir nossos preconceitos. Em Compl\u00f4 contra a Am\u00e9rica [1], Roth imagina que, em 1940, Franklin Roosevelt, o presidente democrata, n\u00e3o pode disputar um terceiro mandato. Charles Lindbergh, aviador e her\u00f3i das multid\u00f5es, mas tamb\u00e9m anti-semita not\u00f3rio e simpatizante do regime nazista, recebe o apoio do partido republicano. Apoiado pela forte corrente isolacionista, que pretende manter os Estados Unidos fora da guerra na Europa, acaba conquistando o poder. O tema do romance \u00e9, portanto, a cr\u00f4nica desse ano fict\u00edcio em que o presidente, logo depois de chegar \u00e0 Casa Branca, apressa-se em assinar um pacto de n\u00e3o agress\u00e3o com Hitler e depois com o Jap\u00e3o. Em seguida, p\u00f5e em marcha, sob pretextos vazios, uma pol\u00edtica de discrimina\u00e7\u00e3o contra a comunidade judaica. At\u00e9 o momento em que Lindbergh sofre um acidente de avi\u00e3o, Roosevelt retorna \u00e0 cena p\u00fablica e a hist\u00f3ria retoma o curso que hoje conhecemos&#8230;<\/p>\n<p>Seria, como afirma a apresenta\u00e7\u00e3o do livro, um tema de \u201cfic\u00e7\u00e3o-pol\u00edtica\u201d? N\u00e3o exatamente: a fic\u00e7\u00e3o-pol\u00edtica consiste, na maior parte das vezes, em projetar no futuro uma esp\u00e9cie de anti-utopia, carregada de conota\u00e7\u00e3o cr\u00edtica sobre o pr\u00f3prio presente (como no caso de Admir\u00e1vel mundo novo, de Huxley, ou A cadeira da \u00e1guia o bel\u00edssimo novo romance de Carlos Fuentes). Mas Roth dedica-se, antes, a inventar um passado virtual. A fun\u00e7\u00e3o cr\u00edtica n\u00e3o est\u00e1 ausente (como n\u00e3o pensar em certos fatos recentes, quando o autor constr\u00f3i o cen\u00e1rio com os EUA virados para si mesmos, fazendo da mentira uma pol\u00edtica de Estado e dispostos a sacrificar seus princ\u00edpios, se assim julgarem necess\u00e1rio&#8230;). Mas ela se apresenta mais conforme a vis\u00e3o de Robert Musil: para este, o real n\u00e3o era mais que uma possibilidade entre outras. Cabia \u00e0 arte romanesca explorar as possibilidades da exist\u00eancia humana, n\u00e3o menos reais do que o historicamente confirmado.<\/p>\n<p><strong>Um romance hist\u00f3rico de fic\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nNumerosos romancistas nos \u00faltimos anos, n\u00e3o recearam abordar grandes temas hist\u00f3ricos. Podemos lembrar de Passo de caranguejo, de G\u00fcnter Grass; Estado de S\u00edtio, de Juan Goytisolo; Desonra, de Coetzee; A Festa do bode, de Mario Vargas Llosa; Neve, de Orhan Pamuk; entre outros). N\u00e3o que se trate de uma volta ao romance hist\u00f3rico, no modelo elaborado no s\u00e9culo XX. \u00c9, antes, uma quest\u00e3o de explorar as zonas de sombra da hist\u00f3ria, o outro lado da verdade oficial, a parte t\u00e1cita dos consensos coletivos. Esclarecer as ambig\u00fcidades de que a Hist\u00f3ria, tamb\u00e9m ela, est\u00e1 permeada. Roth evoluiu tamb\u00e9m nesse sentido. Seus primeiros romances eram centrados na comunidade judaica de Nova Jersey, de onde saiu, em uma inteligente ruptura dos limites entre realidade e fic\u00e7\u00e3o, adequada para desequilibrar os efeitos de autenticidade ligados ao discurso \u00edntimo ou pessoal (o que culmina nessa obra prima que \u00e9 O Avesso da vida). Mas, j\u00e1 h\u00e1 algum tempo, Roth alargou seus horizontes, tomando como tema, por exemplo, as tens\u00f5es e contradi\u00e7\u00f5es da situa\u00e7\u00e3o judaica em Israel (Opera\u00e7\u00e3o Shylock), as ondas terroristas ligadas \u00e0 contra-cultura norte-americana dos anos 70 (Pastoral Americana), os confrontos causados pelo macartismo, (Casei com um comunista),ou, mais recentemente, as tiranias do politicamente correto, com um fundo de retorno do puritanismo repressivo, revelado pelo caso Clinton-Lewinski (A marca humana).<\/p>\n<p>Agora, com Compl\u00f4 contra a Am\u00e9rica, Roth parece ter dado um passo mais largo: seu objeto n\u00e3o \u00e9 mais a realidade norte-americana, mas o fastasma, a \u201cbesta imunda\u201d que nela est\u00e1 e que poderia despertar. Ele contribui com uma mudan\u00e7a na nossa maneira de ver o pa\u00eds, com o desembara\u00e7o de qualquer desconfian\u00e7a ing\u00eanua, de qualquer credulidade cega.<\/p>\n<p>Trata-se, portanto, de uma imagina\u00e7\u00e3o retroativa. O grande m\u00e9rito do romance \u00e9 conjugar um regime de pura fantasia, na fic\u00e7\u00e3o (o leitor n\u00e3o se esquece nunca que o que se conta a ele n\u00e3o \u00e9 a verdade comprovada) e um regime de verossimilhan\u00e7a, de credibilidade, na narra\u00e7\u00e3o (como nas narrativas realistas cl\u00e1ssicas, simpatizamos com o her\u00f3i, vivemos com ele as emo\u00e7\u00f5es, perguntamo-nos a todo instante como as coisas v\u00e3o evoluir). O que faz Roth para conseguir tal paradoxo? Ele mistura aos fatos meramente imagin\u00e1rios uma grande abund\u00e2ncia de fatos hist\u00f3ricos reais (o terr\u00edvel discurso antisemita feito por Lindbergh em 1941), biogr\u00e1ficos (o comportamento atribu\u00eddo, em tal contexto, a Roosevelt, a Fiorelo la Guardia, ao prefeito de Nova York, ou ao popular animador de r\u00e1dio Winchell \u00e9 perfeitamente coerente com o comportamento real desses personagens). Mas, sobretudo, enra\u00edza a narrativa em um universo que conhece muito bem: a comunidade judaica de Newark nos anos 40. Tudo isso permite, sem perder o foco da intriga hist\u00f3rica, fazer proliferar anedotas, perfis, epis\u00f3dios privados e detalhes manifestamente colhidos de sua pr\u00f3pria experi\u00eancia de vida e que t\u00eam, para o leitor, o mesmo toque de autenticidade.<\/p>\n<p><strong>O olhar pol\u00edtico das crian\u00e7as<\/strong><br \/>\nA jogada de mestre do autor foi ter feito a narrativa sob o olhar de uma crian\u00e7a judia de sete anos (a mesma idade do autor, na \u00e9poca em que os acontecimentos teriam ocorrido). Essa narrativa hist\u00f3rica pode ser lida tamb\u00e9m como um romance did\u00e1tico. O que nos prende \u00e9 menos a hist\u00f3ria em si do que o modo como ela pode atingir e perturbar a vida de uma crian\u00e7a, e como pode contribuir na forma\u00e7\u00e3o de sua consci\u00eancia. Outra sacada, adjacente, \u00e9 a demonstra\u00e7\u00e3o de que a inf\u00e2ncia \u00e9 muito mais profundamente pol\u00edtica do que pensamos: \u00e9 preciso, portanto, questionar a raz\u00e3o de um interesse t\u00e3o vivo da sociedade em propagar o mito oposto&#8230;<\/p>\n<p>O narrador pertence a uma fam\u00edlia judia perfeitamente integrada (\u201ct\u00ednhamos nossa p\u00e1tria h\u00e1 tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es\u201d), tendo aderido aos valores e ao modo de vida norte-americanos \u2013 ainda que singularizados por tra\u00e7os de vida comunit\u00e1ria, que n\u00e3o causavam reais conflitos. \u00c9 atrav\u00e9s desse microcosmo familiar que ele vai ter sua percep\u00e7\u00e3o dos acontecimentos pol\u00edticos que afetam todo o pa\u00eds. O poder, em torno do presidente Lindbergh, dos lobbies pr\u00f3-Hitler. O pacto de alian\u00e7a dos Estados Unidos com as pot\u00eancias do eixo. A contra ofensiva empreendida por Wichell, que resulta em levantes anti-semitas com mortes na maior parte das grandes cidades estadunidenses. O que mais o marca e amea\u00e7a o equil\u00edbrio familiar, entre tudo o que perturba sua vida cotidiana, \u00e9 o alistamento do primo no ex\u00e9rcito canadense para combater o nazismo na Europa, de onde ele volta amputado e ferido; a maneira como seu pr\u00f3prio irm\u00e3o come\u00e7a a negar o mundo judeu onde cresceu, depois de um plano de \u201cintegra\u00e7\u00e3o\u201d que pretendia enviar os jovens judeus ao campo (para melhor desmantelar as comunidades); as situa\u00e7\u00f5es vexat\u00f3rias que seus pais sofriam; ou mesmo as rupturas violentas provocadas por essa situa\u00e7\u00e3o, ocorridas no seio da fam\u00edlia ou no c\u00edrculo de amigos e solidariedade que o cercava.<\/p>\n<p>Tudo isso filtrado pelo olhar de uma crian\u00e7a, que d\u00e1 a certos dramas pessoais (a perda de sua cole\u00e7\u00e3o de selos) a mesma import\u00e2ncia que \u00e0s convuls\u00f5es maiores da hist\u00f3ria. Sem poder evitar sentir as perturba\u00e7\u00f5es a partir de seus afetos privados, de suas antipatias \u00edntimas (em rela\u00e7\u00e3o a seu irm\u00e3o ou a seu vizinho) e de suas admira\u00e7\u00f5es mais intensas (em rela\u00e7\u00e3o a seu primo her\u00f3i e mutilado). Misturando as ambival\u00eancias de sua rela\u00e7\u00e3o com os pais e as vicissitudes de seu pr\u00f3prio romance familiar, no sentido freudiano (a significativa passagem em que ele faz uma tentativa de fuga que o leva a&#8230; um orfanato). Como se essa medita\u00e7\u00e3o infantil fosse a melhor maneira de traduzir para o leitor a forma subjetiva como a Hist\u00f3ria \u00e9 vivida, e de dar a essa hist\u00f3ria imagin\u00e1ria um prodigioso senso de veracidade.<br \/>\n<strong><br \/>\nBush e sua pol\u00edtica: raio em c\u00e9u azul?<\/strong><br \/>\nOutra grande solu\u00e7\u00e3o de Roth, nesse romance, foi saber evitar um discurso pedag\u00f3gico, ou manique\u00edsta, onde se oporiam os bons e os maus, as v\u00edtimas e seus carrascos. N\u00e3o se trata aqui de um \u201cconto pol\u00edtico\u201d (como se falava, no s\u00e9culo 18, dos \u201ccontos filos\u00f3ficos\u201d), mas de um verdadeiro romance, onde os comportamentos humanos s\u00e3o explorados tamb\u00e9m em suas contradi\u00e7\u00f5es, indecis\u00f5es e complexidades. O primo vindo da Europa est\u00e1 longe de ser um her\u00f3i imaculado. Ele se rebela, est\u00e1 no mau caminho, passa os dias desocupado, ou entregue a atividades suspeitas.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio mundo judeu tem seus covardes, seus traidores (a tia do narrador, ou o rabino Bengelsdorf, que se alia a Lindbergh, para quem serve de \u00e1libi). O irm\u00e3o do narrador, tomado pela propaganda oficial, n\u00e3o para de exalar ressentimento de sua origem. Winchell, o porta-voz da oposi\u00e7\u00e3o a Lindbergh, \u00e9 tamb\u00e9m demagogo da pior esp\u00e9cie. J\u00e1 o novo vizinho italiano, que se instala no pr\u00e9dio do narrador para temor de todos, manifesta uma franca e espont\u00e2nea solidariedade a seus vizinhos judeus perseguidos&#8230; \u00c9 a\u00ed que Roth expressa a grande id\u00e9ia de Milan Kundera: a hist\u00f3ria, para um verdadeiro romancista, \u00e9 menos o objeto do que a luz que nos permite v\u00ea-lo. Na experi\u00eancia humana, as zonas de paradoxos e ambig\u00fcidades escapam a toda redund\u00e2ncia moral&#8230;<\/p>\n<p>Poderia haver uma li\u00e7\u00e3o a tirar. No momento em que certos propagandistas liberais querem fazer crer que os EUA s\u00e3o consubstancialmente democratas, e que a desastrosa pol\u00edtica de George W.Bush \u00e9 apenas um lament\u00e1vel arranh\u00e3o em corpo s\u00e3o, coube a Roth sugerir, na contram\u00e3o do consenso, que essa democracia \u00e9 fr\u00e1gil, e que as for\u00e7as que fizeram o pa\u00eds beirar o nazismo n\u00e3o est\u00e3o de todo ausentes&#8230;<\/p>\n<p>Foi necess\u00e1ria uma obra prima do romance permitir enxergar. Philip Roth a escreve com fabuloso poder de ironia, de insol\u00eancia e de lucidez. No fundo, se devesse existir uma s\u00f3 raz\u00e3o para n\u00e3o cairmos no anti-americanismo prim\u00e1rio, essa raz\u00e3o seria a exist\u00eancia, nos Estados Unidos, de um escritor como esse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tradu\u00e7\u00e3o: Leonardo Abreu leonardoaabreu@yahoo.com.br<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">[<a href=\"javascript:history.go(-1)\">Voltar<\/a>]<\/p>\n<p><\/span><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em Compl\u00f4 contra a Am\u00e9rica o escritor norte-americano Philip Roth revela o lado fascista de seu pa\u00eds. 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