{"id":8230,"date":"2010-01-23T13:19:49","date_gmt":"2010-01-23T16:19:49","guid":{"rendered":"http:\/\/antonini.med.br\/blog\/?p=8230"},"modified":"2022-02-15T03:26:46","modified_gmt":"2022-02-15T03:26:46","slug":"virus-da-dengue-pode-levar-a-transtornos-neurologicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonini.psc.br\/?p=8230","title":{"rendered":"V\u00edrus da dengue pode levar a transtornos neurol\u00f3gicos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Durante a epidemia de dengue de 2002, muitos pacientes n\u00e3o diagnosticados com a doen\u00e7a deram entrada nos hospitais da rede p\u00fablica com quadros neurol\u00f3gicos. Segundo a neurologista Marzia Puccioni-Sohler, n\u00e3o se tratava de coincid\u00eancia. Como mostrou na pesquisa que coordena na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a presen\u00e7a do v\u00edrus da dengue pode desencadear doen\u00e7as neurol\u00f3gicas, como a encefalite, a meningite, ou a s\u00edndrome de Guillain-Barr\u00e8. Para confirmar e tamb\u00e9m compreender melhor a associa\u00e7\u00e3o entre a infec\u00e7\u00e3o pelo v\u00edrus da dengue e as manifesta\u00e7\u00f5es neurol\u00f3gicas, o estudo pesquisou a produ\u00e7\u00e3o de anticorpos contra o v\u00edrus no sistema nervoso. Essa confirma\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas facilita o diagn\u00f3stico precoce das doen\u00e7as associadas \u00e0 dengue, como permite que se trace um tratamento mais eficaz.<!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Faperj<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Nossa d\u00favida era se a dengue causava ou n\u00e3o doen\u00e7a neurol\u00f3gica. Encontramos tantos casos neurol\u00f3gicos que poderiam estar associados \u00e0 dengue que, para confirmar essa rela\u00e7\u00e3o, decidimos testar a presen\u00e7a de anticorpos de fase aguda nesses pacientes, independente de hist\u00f3ria pr\u00e9via de dengue. Porque v\u00e1rios deles n\u00e3o apresentavam sintomas da dengue cl\u00e1ssica e muitos eram assintom\u00e1ticos&#8221;, fala a pesquisadora. Seu estudo &#8220;S\u00edntese Intratecal de Anticorpos na Dengue&#8221;, desenvolvido no Laborat\u00f3rio de L\u00edquido Cefalorraquidiano do Hospital Universit\u00e1rio Clementino Fraga Filho, da UFRJ, foi recentemente publicado na revista Neurology, como um dos sete destaques da edi\u00e7\u00e3o e motivo de entrevista pela American Academy of Neurology. O trabalho contou com apoio do Aux\u00edlio \u00e0 Pesquisa (APQ 1), da FAPERJ.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre os casos de dengue provocados pelos v\u00edrus da dengue (dos tipos 2 e 3), de 1% a 5% evoluem para doen\u00e7as neurol\u00f3gicas. Isso tanto pode acontecer pela atua\u00e7\u00e3o direta do v\u00edrus sobre o sistema nervoso, provocando inflama\u00e7\u00f5es \u2013 como no caso da mielite e da encefalite \u2013, quanto pelo desenvolvimento de doen\u00e7as neurol\u00f3gicas devido a uma rea\u00e7\u00e3o imunol\u00f3gica, cujos sintomas costumam surgir cerca de um m\u00eas depois da contamina\u00e7\u00e3o pelo v\u00edrus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;No Rio de Janeiro, isso \u00e9 preocupante. O estado \u00e9 uma \u00e1rea end\u00eamica, com alta incid\u00eancia de dengue. Por isso, sugerimos que, em situa\u00e7\u00f5es de epidemia, os casos de mielite, encefalite e s\u00edndrome de Guillain-Barr\u00e8 sejam investigados. Isso pode ser feito com pesquisa de anticorpos IgM ou procurando detectar a presen\u00e7a de v\u00edrus no l\u00edquido cefalorraquiano ou no sangue desses pacientes&#8221;, aponta a neurologista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A equipe coordenada por Marzia analisou amostras de 10 pacientes com sorologia positiva para dengue \u2013 entre eles, casos com sintomas neurol\u00f3gicos de encefalite, mielite, neuromielite \u00f3ptica e s\u00edndrome de Guillain-Barr\u00e9. Durante a pesquisa, foi poss\u00edvel observar a exist\u00eancia de s\u00edntese de anticorpos antidengue no l\u00edquido cefalorraquiano de pacientes com mielite. &#8220;Isso demonstra que se pode ter um marcador de infec\u00e7\u00e3o viral no sistema nervoso. Em pacientes com mielite \u2013 inflama\u00e7\u00e3o da medula espinhal \u2013, por exemplo, essa produ\u00e7\u00e3o de anticorpos no sistema nervoso se torna um marcador da a\u00e7\u00e3o do v\u00edrus da dengue&#8221;, explica. Para a pesquisadora, esse passa a ser um grande apoio ao diagn\u00f3stico \u00e0 mielite associada \u00e0 dengue e permite a melhor compreens\u00e3o da origem desta manifesta\u00e7\u00e3o neurol\u00f3gica provavelmente relacionada \u00e0 invas\u00e3o viral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora nos pacientes com neuromielite \u00f3ptica e s\u00edndrome de Guillain-Barr\u00e9, n\u00e3o se tenha registrado produ\u00e7\u00e3o de anticorpos contra o v\u00edrus da dengue, isso n\u00e3o significa que n\u00e3o haja rela\u00e7\u00e3o entre as duas doen\u00e7as. &#8220;Nesses casos, devemos considerar uma prov\u00e1vel causa autoimune desencadeada pela presen\u00e7a do v\u00edrus&#8221;, explica Marzia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A s\u00edndrome de Guillain-Barr\u00e9 apresenta caracter\u00edsticas distintas. &#8220;Trata-se de uma doen\u00e7a autoimune, precedida por uma infec\u00e7\u00e3o, provocada muitas vezes pela entrada de um v\u00edrus no sistema nervoso, que ativa o sistema imunol\u00f3gico, gerando uma rea\u00e7\u00e3o imune contra prote\u00ednas do sistema nervoso perif\u00e9rico&#8221;, explica. Segundo a pesquisadora, esses anticorpos confundem as prote\u00ednas do pr\u00f3prio organismo com prote\u00ednas do v\u00edrus com o qual tiveram contato, e passam a atac\u00e1-las. \u00c9 essa rea\u00e7\u00e3o que leva \u00e0 s\u00edndrome de Guillain-Barr\u00e9, doen\u00e7a inflamat\u00f3ria das ra\u00edzes dos nervos. &#8220;Que, nesse caso, \u00e9 desencadeada pelo v\u00edrus da dengue&#8221;, diz a pesquisadora. A neuromielite \u00f3tica tamb\u00e9m \u00e9 provocada por processo semelhante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os sintomas da dengue j\u00e1 s\u00e3o bem conhecidos: febre alta, dor de cabe\u00e7a intensa, des\u00e2nimo e dores nas articula\u00e7\u00f5es, mialgia e dor retro-ocular. Nos casos de encefalite, no entanto, h\u00e1 repentina redu\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de consci\u00eancia, sonol\u00eancia, convuls\u00f5es, d\u00e9ficit neurol\u00f3gico focal, como perda da for\u00e7a de um dos lados do corpo e o paciente passa a n\u00e3o mais responder a est\u00edmulos do ambiente. Na mielite, h\u00e1 tamb\u00e9m a perda de for\u00e7a muscular dos membros inferiores, e o doente perde a capacidade de andar. Na s\u00edndrome de Guillain Barre, essa perda de for\u00e7a muscular pode ascender, atingindo tamb\u00e9m os membros superiores. O risco maior \u00e9 de se chegar a uma defici\u00eancia respirat\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pacientes diagnosticados com essas doen\u00e7as neurol\u00f3gicas associadas \u00e0 dengue, no entanto, n\u00e3o devem preocupar-se demais. Em geral, elas s\u00e3o benignas. &#8220;Tratamos as manifesta\u00e7\u00f5es neurol\u00f3gicas com medicamentos espec\u00edficos e os sintomas tendem a desaparecer em alguns dias, sem deixar sequelas&#8221;, tranquiliza a pesquisadora, embora situa\u00e7\u00f5es mais graves possam eventualmente ocorrer. Ela esclarece ainda que nos casos de Guillain-Barr\u00e8 associada \u00e0 dengue, a doen\u00e7a segue durante 15 a 20 dias. Depois desse processo, os pacientes evoluem com melhora e n\u00e3o h\u00e1 quaisquer consequ\u00eancias. &#8220;Apenas num \u00fanico caso de mielite, entre os que estudamos, houve a perda de for\u00e7a nos membros inferiores, que se manteve por um ano, como sequela da doen\u00e7a neurol\u00f3gica&#8221;, diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pesquisa \u00e9 parte do projeto &#8220;Implanta\u00e7\u00e3o da rede de biologia molecular no SUS&#8221;, coordenado por Jos\u00e9 Mauro Peralta, do Instituto de Microbiologia da UFRJ (apoio FAPERJ, em parceria com MS \u2013 Programa PPSUS), e tamb\u00e9m contou com a participa\u00e7\u00e3o do microbiologista Mauro Jorge Cabral Castro, do bi\u00f3logo Luis Cl\u00e1udio Faria e das neurologistas Cristiane Soares e Regina Alvarenga.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">[<a href=\"javascript:history.go(-1)\">Voltar<\/a>]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante a epidemia de dengue de 2002, muitos pacientes n\u00e3o diagnosticados com a doen\u00e7a deram entrada nos hospitais da rede p\u00fablica com quadros neurol\u00f3gicos. 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