{"id":984,"date":"2008-12-07T08:02:41","date_gmt":"2008-12-07T08:02:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.antonini.med.br\/blog\/?p=984"},"modified":"2022-02-15T03:29:56","modified_gmt":"2022-02-15T03:29:56","slug":"tribo-brasileira-sofre-com-o-trafico-de-drogas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonini.psc.br\/?p=984","title":{"rendered":"Tribo brasileira sofre com o tr\u00e1fico de drogas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">A maldita droga il\u00edcita est\u00e1 destruindo at\u00e9 os ind\u00edgenas brasileiros. O que est\u00e1 acontecendo com os \u00edndios que est\u00e3o se entregando \u00e0 drogadi\u00e7\u00e3o? Depress\u00e3o? Estresse da vida moderna? Desilus\u00e3o com a sociedade e com cultura nativa? Decep\u00e7\u00e3o com a pol\u00edtica populista, covarde, criminosa e corrupta do (d\u00eas)governo? Deve haver algum motivo. Com a palavra os &#8220;especialistas&#8221;&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexei Barrionuevo*<br \/>\nEm Tabatinga, Brasil\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os \u00edndios ticuna, que vivem pr\u00f3ximos a esse posto militar na Amaz\u00f4nia, acreditaram por muito tempo que sua comunidade era um portal para o sobrenatural, para seres imortais que os protegeriam e garantiriam sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas ultimamente eles est\u00e3o achando que sua localiza\u00e7\u00e3o pode, em vez disso, ser uma maldi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A aldeia ticuna Mariacu fica ao longo de um trecho tranq\u00fcilo do rio Solim\u00f5es, a menos de cinco quil\u00f4metros da movimentada cidade comercial de Tabatinga, por uma estrada de terra vermelha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora pare\u00e7a tranq\u00fcila, a \u00e1rea se tornou um \u00edm\u00e3 para os traficantes de drogas que vagam pela fronteira tripla com a Col\u00f4mbia e o Peru.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns \u00edndios est\u00e3o aceitando dinheiro para trabalhar como mulas do tr\u00e1fico, usando seu conhecimento dos rios e da densa floresta tropical para transportar coca\u00edna para o crescente mercado brasileiro, dizem as autoridades locais. E um n\u00famero cada vez maior de jovens ticuna est\u00e3o sucumbindo ao abuso de drogas e \u00e1lcool, que os l\u00edderes ind\u00edgenas culpam pelos suic\u00eddios de cerca de 30 adolescentes durante os \u00faltimos cinco anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para os ticuna, esses traumas representam a \u00faltima amea\u00e7a na luta pela sobreviv\u00eancia da tribo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com cada vez menos chances de emprego, a gera\u00e7\u00e3o mais velha est\u00e1 lutando para evitar que os jovens se percam nos v\u00edcios do mundo do homem branco e para salvar da destrui\u00e7\u00e3o o que restou da cultura tradicional ticuna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alarmados pela viol\u00eancia e desobedi\u00eancia da juventude da aldeia, dois chefes Mariacu fizeram recentemente um apelo desesperado e incomum por<br \/>\najuda: pediram \u00e0 pol\u00edcia brasileira, que normalmente n\u00e3o tem jurisdi\u00e7\u00e3o sobre as aldeias ind\u00edgenas, para entrar na comunidade e reprimir os traficantes e usu\u00e1rios de subst\u00e2ncias, mesmo que isso signifique colocar os \u00edndios \u00e0 merc\u00ea das leis brasileiras.\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Queremos que as autoridades do governo nos ajudem a salvar nossas crian\u00e7as, para que elas n\u00e3o participem dessas pr\u00e1ticas destrutivas&#8221;, disse Oswaldo Honorato Mendes, um chefe Mariacu de voz profunda. A gera\u00e7\u00e3o mais jovem n\u00e3o obedece. Eles n\u00e3o mostram respeito pela nossa autoridade como chefes. Eles precisam aprender o respeito&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Respeito e obedi\u00eancia aos chefes s\u00e3o os pilares da lei tribal, que normalmente tem influ\u00eancia nas comunidades ind\u00edgenas, mas que se mostrou insuficiente para lidar com os novos desafios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os l\u00edderes tribais chegaram a um ponto cr\u00edtico no in\u00edcio de outubro quando Ildo Mariano, 18, enforcou-se enquanto seus pais dormiam dentro de sua pequena casa de madeira. Durante meses, ele vinha bebendo e provavelmente usando drogas com amigos que viviam em Tabatinga, disse o pai, Alfredo Mariano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ele chegava da aula \u00e0 noite e come\u00e7ava a estudar, mas da\u00ed seus amigos o pegavam e o levavam para n\u00e3o sei onde&#8221;, disse Mariano numa tarde recente, sentado num banco de madeira enquanto sua mulher fervia frutos de palmeira pupunha a alguns metros dali.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quatro dias depois do suic\u00eddio de Ildo, os chefes convocaram oficiais da pol\u00edcia federal, civil e militar de Tabatinga para um encontro em Mariacu, onde vivem cerca de 5.200 ticuna. Eles pediram que a pol\u00edcia fa\u00e7a mais para controlar os traficantes de drogas e prender os infratores em suas comunidades. Os oficiais da pol\u00edcia ouviram com educa\u00e7\u00e3o, mas foram embora duvidando que poderiam ajudar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;\u00c9 um pedido desesperado, mas n\u00e3o podemos responder legalmente a ele&#8221;, disse Sergio Fontes, superintendente da pol\u00edcia federal na cidade de Manaus, que supervisiona Tabatinga. &#8220;Os chefes querem resolver um problema social com a pol\u00edcia, e isso \u00e9 errado&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pol\u00edcia normalmente n\u00e3o pode entrar nas comunidades ind\u00edgenas do Brasil para fazer investiga\u00e7\u00f5es, e os \u00edndios geralmente s\u00e3o imunes \u00e0s leis brasileiras, disse Fontes. Al\u00e9m disso, o Brasil trata os usu\u00e1rios de drogas como v\u00edtimas que precisam de tratamento, e n\u00e3o como criminosos. Eles s\u00e3o normalmente sentenciados para receber tratamento contra o v\u00edcio ou prestar servi\u00e7os comunit\u00e1rios em vez de irem para a pris\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E apesar de as drogas e o \u00e1lcool serem ilegais em Mariacu, as prateleiras das lojas em Tabatinga est\u00e3o repletas de bebidas alco\u00f3licas de todos os tipos. Os ticuna tamb\u00e9m falam de uma pasta branca, que a maioria acredita que \u00e9 um tipo de coca\u00edna, que os jovens da aldeia est\u00e3o misturando com bebidas alco\u00f3licas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os ticuna, que vivem na regi\u00e3o h\u00e1 s\u00e9culos e migraram para essa \u00e1rea no come\u00e7o da d\u00e9cada de 1840, vivem tradicionalmente da pesca e do plantio de banana e mandioca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com a lenda, seu deus, Yoi, os pescou de um afluente do Solim\u00f5es. As fronteiras com o Peru e a Col\u00f4mbia por tradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o significam muito para eles. Leticia, a cidade mais ao sul da Col\u00f4mbia, fica a menos de 20 minutos de micro\u00f4nibus dali.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eles permaneceram em grande parte isolados at\u00e9 os anos 1940, quando o Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o ao \u00cdndio do Brasil, hoje Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio, Funai, criou um escrit\u00f3rio para assuntos ind\u00edgenas aqui, transformando a cidade numa esp\u00e9cie de capital regional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que aconteceu em Mariacu &#8220;n\u00e3o \u00e9 o resultado de nenhum abandono da cultura ticuna&#8221;, disse Jo\u00e3o Pacheco de Oliveira, professor de antropologia no Museu Nacional. Mas sim da hist\u00f3ria e da cultura n\u00e3o-ind\u00edgena transformando o mundo ao redor dos ticuna, disse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tabatinga, que j\u00e1 foi uma pequena cidade militar, come\u00e7ou a crescer rapidamente como um centro de com\u00e9rcio de fronteira nos anos 80 e agora abriga cerca de 48 mil pessoas. Os ticuna come\u00e7aram a participar da pol\u00edtica de Tabatinga nos anos 90, a servir no ex\u00e9rcito como reservistas e at\u00e9 mesmo a enviar suas crian\u00e7as para escolas p\u00fablicas daqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a regi\u00e3o tamb\u00e9m tem sido um entreposto para os traficantes de drogas desde os anos 70. A repress\u00e3o recente do governo colombiano \u00e0s narco-guerrilhas desviou mais carregamentos de drogas para o territ\u00f3rio brasileiro, disse Fontes, superintendente da pol\u00edcia. A pol\u00edcia federal de Manaus j\u00e1 confiscou mais de 2 toneladas de coca\u00edna este ano, e cerca de 770 quilos apenas em novembro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Houve uma escalada de viol\u00eancia na regi\u00e3o do Alto Solim\u00f5es, de quadrilhas de tr\u00e1fico de drogas, com um n\u00famero assustador de assassinatos, e a maioria dessas quadrilhas est\u00e1 no territ\u00f3rio brasileiro&#8221;, disse Fontes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A falta de empregos est\u00e1 piorando. H\u00e1 uma d\u00e9cada a pesca no rio come\u00e7ou a declinar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o aumento da popula\u00e7\u00e3o de Mariacu e a rigidez das fronteiras oficiais, h\u00e1 pouco espa\u00e7o para aumentar as \u00e1reas de cultivo, ou para criar \u00e1reas abertas para as crian\u00e7as brincarem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Luz Marina Mendes disse que ela quase perdeu seu filho de 19 anos, Donizete, que tentou se matar duas vezes enquanto usava drogas. Ela o pegou usando drogas no ano passado, e encontrou uma pasta esbranqui\u00e7ada que sua sobrinha disse a ela que era um tipo de droga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dia Donizete trope\u00e7ou na porta da frente da casa da fam\u00edlia num acesso de viol\u00eancia, com o bra\u00e7o sangrando por causa de um corte profundo que ele mesmo havia feito. Na outra vez, disse Mendes, ela o salvou ao descobri-lo tentando se enforcar com uma corda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais tarde ele se juntou ao ex\u00e9rcito e abandonou as drogas enquanto vivia no quartel em Tabatinga, disse ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Virgem Maria, eu passei por um tempo muito dif\u00edcil com ele&#8221;, disse ela, chorando por causa da lembran\u00e7a. &#8220;Eu sofri muito&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas buscar ajuda de fora \u00e9 um assunto espinhoso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto os \u00edndios que n\u00e3o foram expostos \u00e0 cultura de fora n\u00e3o podem ser processados de nenhuma forma pela lei brasileira, os chamados \u00edndios aculturados, como os ticuna, podem ser processados sob certas circunst\u00e2ncias, disse Davi Cecilio, ticuna que \u00e9 chefe do escrit\u00f3rio da Funai de Tabatinga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo assim, um \u00edndio aculturado &#8220;n\u00e3o pode ser preso pelo mesmo tempo que um homem branco&#8221;, disse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na cadeia de Tabatinga, meia d\u00fazia de \u00edndios foram detidos recentemente, suspeitos de atuar como mulas de drogas. Os traficantes se aproximam dos \u00edndios porque eles normalmente n\u00e3o sabem que as subst\u00e2ncias que lhes pedem para transportar s\u00e3o ilegais, disse o tenente Francisco Garcia, que administra a cadeia. Os \u00edndios provavelmente suspeitam que o que pedem para eles fazerem n\u00e3o \u00e9 muito certo, mas normalmente n\u00e3o compreendem totalmente as graves senten\u00e7as de pris\u00e3o que poderiam sofrer no mundo do homem branco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e9 dif\u00edcil resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o do dinheiro f\u00e1cil. A maioria dos ticuna em Mariacu ganha pouco mais do que o sal\u00e1rio m\u00ednimo brasileiro de US$ 168 por m\u00eas. Na cadeia, Max Tello, um \u00edndio de 20 anos da tribo cocama, no oeste da Amaz\u00f4nia, disse que aceitou US$ 404 em janeiro para levar um pacote de coca\u00edna rio acima, enquanto trabalhava num barco no rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Queliana Gomes, 23, que \u00e9 parte ticuna e parte cocama, tamb\u00e9m est\u00e1 na cadeia. Ela disse que recebeu mais de 12 vezes o que ganhava como empregada dom\u00e9stica em Tabatinga para transportar um pacote de uma subst\u00e2ncia branca que mais tarde ficou sabendo que era coca\u00edna, disse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de saber que o que fez \u00e9 ilegal, ela disse que os \u00edndios deveriam ser considerados sob outro par\u00e2metro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A lei do homem branco \u00e9 a lei do homem branco, e a nossa lei tem que prevalecer, porque nosso povo n\u00e3o chegou aqui por causa dos brancos&#8221;, disse Gomes. &#8220;Se n\u00e3o lutarmos pelos nossos direitos, nossa etnia vai deixar de existir&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O portugu\u00eas est\u00e1 aos poucos minando a import\u00e2ncia da l\u00edngua ticuna em Mariacu. Os ticuna mais jovens est\u00e3o cada vez menos interessados em pescar para viver ou em continuar com as tradi\u00e7\u00f5es dos mais velhos, dizem os moradores. Os jovens ticuna &#8220;querem ter uma moto como os brancos da cidade, dan\u00e7ar a m\u00fasica deles, participar da vida regular dos brancos em Tabatinga&#8221;, disse Joel Santos de Lima, prefeito de Tabatinga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse estilo de vida trouxe uma viol\u00eancia que parece quase inevit\u00e1vel hoje em dia, dizem os chefes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A pol\u00edcia \u00e9 a seguran\u00e7a do Brasil, e eles n\u00e3o est\u00e3o fazendo nada&#8221;, disse Mendes. &#8220;\u00c9 responsabilidade deles. \u00c9 para isso que eles s\u00e3o pagos&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas com a pol\u00edcia rejeitando o apelo dos \u00edndios, pelo menos por enquanto, os ticuna ter\u00e3o que descobrir outras maneiras de lidar com seus pr\u00f3prios problemas sociais e com o redemoinho de novas influ\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Os ticuna est\u00e3o entre dois mundos&#8221;, disse Fontes, &#8220;e eu n\u00e3o sei qual \u00e9 o pior&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* Mery Galanternick contribuiu com a reportagem no Rio de Janeiro, Brasil<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">[<a href=\"javascript:history.go(-1)\">Voltar<\/a>]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A maldita droga il\u00edcita est\u00e1 destruindo at\u00e9 os ind\u00edgenas brasileiros. 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